letramentoEleiçõesReportagem
← Eleições

Gênero e poder · Cenário

Se só mulheres pudessem governar, 12 estados teriam governadora com menos de 1% dos votos

O Brasil teria 21 governadoras pelos votos de 4 de outubro; só 8 passaram de 15%. Em Santa Catarina, a mulher mais votada teve 1 voto em cada 200. Em 6 estados, nenhuma mulher se candidatou. Na vida real, 1 foi eleita e 4 vão ao 2º turno.

ReportagemEleições 2026 · 1º turno5 de outubro de 2026

Em Santa Catarina, o governo iria para uma mulher de 31 anos que se declarou psicóloga ao TSE. Laís Chaud, do partido Unidade Popular (UP), teve 21.252 votos no domingo. É 1 voto em cada 200. O governador eleito, Jorginho Mello (PL), teve 69 em cada 100. Mas, se nenhum homem pudesse assumir, ela assumiria o governo: foi a mulher mais votada do estado.

Santa Catarina não é exceção. Em 12 dos 21 estados que tiveram candidata, a governadora deste cenário teria menos de 1 voto em cada 100. Os votos são os do 1º turno de 2026, contados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

21governadoras pelo voto, se só mulheres pudessem assumir
12 de 21teriam menos de 1 voto em cada 100
1governadora eleita de verdade no domingo; outras 4 vão ao 2º turno

A regra: assume a mulher mais votada

Nenhum homem pode assumir o governo. Em cada estado, assume a mulher que teve mais votos para o governo no 1º turno, em qualquer colocação.

Não há 2º turno no cenário. Vale a ordem do 1º turno. O 2º turno de verdade é em 25 de outubro.

Contam só os votos dados a candidatos. Brancos e nulos ficam de fora, como na conta oficial. Também ficam de fora os votos de candidatos com registro anulado pela Justiça Eleitoral enquanto o caso é julgado.

Nos 6 estados sem candidata, uma hipótese diferente: assume a vice da chapa mais votada, se for mulher. É o que a lei já manda quando o governador eleito não pode assumir: toma posse o vice.

Uma ressalva importante. Esses votos foram dados numa eleição de verdade, com homens na disputa. Se só mulheres pudessem se candidatar, o eleitor votaria de outro jeito, e os partidos lançariam outras candidatas. O cenário não prevê quem ganharia. Ele mede a força de voto que as mulheres tiveram nesta eleição.

Faça seu palpite antes de ver o mapa

A governadora de cada estado, se só mulheres pudessem assumir

5

Toque num estado, ou escolha na lista, para ver quem seria a governadora, o que ela declarou ser e quantos votos teve.

    Escolha um estado no mapa ou na lista.
    Fonte: TSE, votos de cada candidato ao governo no 1º turno de 4 de outubro de 2026 (arquivo final, todas as seções) e registro das candidaturas. Cor: votos da governadora, de cada 100 votos dados a candidatos ao governo do estado. Hachura: a vice da chapa mais votada (hipótese).

    Cinco chegariam perto da metade dos votos

    No topo da lista, nada muda. Raquel Lyra (PSD) foi reeleita em Pernambuco com 53 votos em cada 100. É a única mulher eleita governadora no domingo.

    Celina Leão (PP), no Distrito Federal, ficou a 168 votos de vencer no 1º turno. Teve 49,99 em cada 100. Mailza Assis (PP), no Acre, também ficou perto de 50. Hana Ghassan (MDB), no Pará, e Professora Dorinha (União), no Tocantins, passaram de 45.

    Depois delas, a força cai rápido. Juliana Brizola (PDT), no Rio Grande do Sul, teve 32 em cada 100. Professora Maria do Carmo (PL), no Amazonas, teve 24 e foi ao 2º turno. Doutora Natasha (PSD), em Mato Grosso, teve 15. As outras 13 ficaram abaixo de 2.

    Os votos da governadora e os de quem teve mais votos no estado, de cada 100

    Barra rosa: a governadora do cenário. Barra cinza: o candidato com mais votos de verdade. A linha tracejada marca a metade dos votos.

    Fonte: TSE, 1º turno de 2026. Só os 21 estados com candidata ao governo. Onde ela mesma teve mais votos (Pernambuco, Distrito Federal, Acre e Tocantins), as duas barras coincidem.

    Em 8 estados, a mulher mais votada para o governo era da Unidade Popular (UP). Nenhuma das 8 chegou a 1 voto em cada 100. Mesmo assim, a UP teria mais governadoras que qualquer outro partido. PP e PSD teriam 2 cada. Ao todo, 12 partidos. O Nordeste teria 7 governadoras; o Norte, 5; Centro-Oeste, Sudeste e Sul, 3 cada.

    Como elas se apresentam ao eleitor

    Na urna, o nome é a primeira frase que a candidata diz ao eleitor. Quatro das 21 puseram um título no nome. Duas se chamam Professora: Maria do Carmo, que declarou ao TSE ser empresária, e Dorinha, que declarou ser senadora. Duas se chamam Doutora: Natasha e Lúcia Santos, que declararam ser médicas. Nenhuma das 21 declarou ser professora. Na Câmara, o peso desses títulos está em Os nomes de urna.

    A ocupação é o que a própria candidata escreve no registro. O TSE não confere. Cinco das 21 já têm mandato: quatro se declararam governadoras e uma, senadora. Três se declararam empresárias. Três declararam ocupações da saúde; duas, do serviço público. Há uma empregada doméstica, uma artesã, uma auxiliar de escritório, uma produtora de espetáculos, uma relações-públicas e uma aposentada. Duas marcaram só “outros”.

    O que as governadoras do cenário declararam ao TSE como ocupação

    Nome de urna, estado e a ocupação como está escrita no registro. O número depois do “+” conta as vices da hipótese.

    Fonte: TSE, registro das candidaturas de 2026 (campo de ocupação). A ocupação é declarada pela candidata e não é verificada pelo tribunal. Os grupos são desta reportagem.

    Repare na forma das palavras. A lista do TSE fala no masculino: as quatro que já governavam se declararam “governador”. Entre as 211 ocupações que aparecem nos registros de 2026, só duas estão no feminino: “dona de casa” e “governanta”.

    Das 21 governadoras do cenário, 16 têm curso superior completo e 15 se declararam brancas. A mais nova tem 31 anos; a mais velha, 73.

    Seis estados sem nenhuma candidata

    Amapá, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Rondônia não tiveram nenhuma mulher candidata ao governo. Neles, usamos a regra que a lei já prevê: se o governador eleito não pode assumir, assume o vice. Em 4 desses estados, a vice da chapa mais votada é mulher.

    No Amapá, assumiria Luciana Gurgel (PL), que se declarou empresária. Ela é vice de Dr. Furlan (PSD), eleito com 63 votos em cada 100. No Maranhão, Elaine Carneiro (PSD), empresária, vice de Eduardo Braide (PSD), eleito com 55. Na Paraíba, Ligia Feliciano (União), médica, vice de Lucas Ribeiro (PP), eleito com 64. No Espírito Santo, Eliane Leal (PL), policial militar, vice de Lorenzo Pazolini (Republicanos), que teve quase 50 e vai ao 2º turno.

    Em Mato Grosso do Sul e em Rondônia, o vice também é homem. Esses dois estados ficariam sem governadora. Depois do vice, a lei chama o presidente da Assembleia Legislativa, um cargo que o voto de domingo não decidiu.

    A regra da vice não é invenção do cenário. No registro das candidaturas, em agosto, 4 mulheres se declararam governadoras ao TSE. Três delas tinham sido eleitas vice em 2022: no Acre, no Distrito Federal e no Pará.

    O Brasil de verdade

    Em 2022, o eleitor escolheu 2 governadoras: Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte, e Raquel Lyra, em Pernambuco. Neste domingo, Raquel Lyra foi reeleita. Outras 4 mulheres vão ao 2º turno. Mailza Assis, Celina Leão e Professora Dorinha ficaram em 1º lugar. Professora Maria do Carmo ficou em 2º. Em 2027, o Brasil terá de 1 a 5 governadoras.

    A distância começa antes da urna. De cada 100 candidaturas ao governo em 2026, 17 eram de mulheres: 35 de 201.

    Há um caminho mais curto, sem cenário nenhum. Em 13 dos 27 estados, a chapa que ficou em 1º lugar tem uma mulher na vice. Se valesse só a regra da lei, a do vice que assume, 15 estados teriam governadora. Todas viriam de chapas que ficaram em 1º lugar.

    O que fica de pé

    Se só mulheres pudessem governar, o Brasil teria 21 governadoras pelo voto e mais 4 pela regra da vice. Cinco delas tiveram perto da metade dos votos, ou mais. Doze tiveram menos de 1 voto em cada 100. O mapa se enche de mulheres; os votos, não. O que não dá para saber é como o eleitor votaria se elas fossem a maioria das candidatas.

    Como fizemos

    • Fontes. TSE: votos de cada candidato ao governo no 1º turno de 2026, por município e zona (arquivo votacao_candidato_munzona_2026, gerado em 05/10/2026, todas as seções), conferidos candidato a candidato com a totalização divulgada na apuração; registro das candidaturas de 2026 e de 2022 (consulta_cand: gênero, idade, ocupação, escolaridade, cor ou raça, vice de cada chapa, situação final).
    • Votos. A porcentagem é sobre os votos dados a candidatos ao governo do estado (os votos válidos). Brancos, nulos e os votos de candidaturas anuladas enquanto o caso é julgado (no Rio de Janeiro, os de Garotinho, que o TSE contou como nulos ao refazer a totalização em 10 de outubro) ficam fora da conta.
    • Cenário. A mulher mais votada de cada estado assume. Sem candidata, a vice da chapa com mais votos no 1º turno, se for mulher. A regra do governo é a mesma da reportagem E se só as mulheres assumissem?, que faz a conta também para Senado, Câmara e Assembleias.
    • Ocupação. É a que a candidata declarou no registro, escolhida numa lista do TSE que usa o masculino. O tribunal não verifica. Os grupos (já têm mandato, empresárias, saúde, serviço público, outros ofícios) são desta reportagem.
    • Limites. Os votos foram dados com homens na disputa; o cenário não diz quem venceria uma eleição só de mulheres. O 2º turno não é simulado. A ordem de sucessão depois do vice segue o modelo da Constituição Federal; não conferimos a Constituição de cada estado.
    • Dados pessoais. Só o que é público na candidatura: nome de urna, partido, estado, votos, idade e ocupação declarada.
    • Cálculo. Scripts eleicoes/calculos/e-se-so-elas-governassem.py e _conferencia.py (a conferência refaz as contas a partir dos arquivos do TSE), no acervo do letramento.org.

    Viu um erro? Discorda?

    Aponte aqui. A redação confere na conta e nos dados oficiais e responde em público, nesta página: diz se acata ou não acata, e por quê. Erro acatado vira correção na própria matéria.

    O que você quer fazer?

    Diga onde está e o que está errado, ou do que você discorda. Até 1.500 caracteres. Não publicamos insulto, dado pessoal nem propaganda.

    Erros e críticas dos leitores

    Abrindo o balcão…