Gênero e representação · Cenário
E se só as mulheres assumissem? O PL seguiria com a maior bancada da Câmara, e 6 estados ficariam sem governo
Em 2026 as mulheres ganharam 21 de cada 100 cadeiras da Câmara e 12 das 54 vagas do Senado — mais que em 2018 e 2022. Refeito só com as candidatas, o mapa partidário quase não se mexe. O que muda é o voto: a deputada federal típica do cenário teria 11,7 mil votos; o eleito típico de verdade teve 107 mil.
ReportagemEleições 2026 · 1º turno5 de outubro de 2026
De cada 100 deputados federais eleitos no domingo, 4 de outubro, 21 são mulheres: 109 das 513 cadeiras. Eram 90 em 2022 e 77 em 2018. Nas Assembleias Legislativas e na Câmara Legislativa do DF, elas são 218 de 1.059 (eram 191 e 163). No Senado, 12 das 54 vagas em disputa ficaram com mulheres, contra 7 em 2018, a última eleição que também renovou dois terços da Casa. Nos governos, só Raquel Lyra (PSD-PE) se reelegeu no primeiro turno; outras quatro disputam o segundo turno, em 25 de outubro, no Acre, no Amazonas, no Distrito Federal e no Tocantins.
Elas são 51 de cada 100 brasileiros e foram 37 de cada 100 candidaturas a deputado federal — a lei exige ao menos 30. A pergunta desta reportagem é um exercício: e se só as mulheres assumissem? Que Brasil sairia das mesmas urnas?
Mulheres eleitas, de cada 100 cadeiras, por cargo
Primeiro turno de 2018, 2022 e 2026. Passe o dedo ou o mouse sobre a barra para ver o número de eleitas.
A regra do cenário
Governo: assume a mulher mais votada do estado no 1º turno, mesmo que tenha ficado longe do primeiro lugar. Sem candidata, o estado fica sem governadora.
Senado: as duas mulheres mais votadas da UF ficam com as duas vagas. Onde só havia uma candidata, a segunda cadeira fica vazia.
Câmara e Assembleias: cada partido ou federação mantém o número de vagas que o TSE calculou para ele no estado (o quociente partidário, que vem da soma de todos os votos da legenda, de homens e mulheres). As vagas vão para as mulheres mais votadas daquela legenda. Se faltar mulher na legenda, a vaga passa à mulher mais votada do estado ainda sem cadeira, de qualquer partido.
A regra preserva o voto de legenda de cada partido e só troca quem senta. Não é uma previsão: com só mulheres na urna, os eleitores votariam de outro jeito. É uma régua para medir quanto da representação depende de quem as legendas puseram na frente.
A Câmara: os partidos ficam, os votos encolhem
Aplicada às 513 cadeiras, a regra muda pouco o tamanho das bancadas. O PL segue a maior, com 116 deputadas (tem 121 deputados de verdade). O PT vai de 70 para 74, o União Brasil de 46 para 48. Só três legendas não tinham mulheres suficientes para as vagas que conquistaram: o PL de Minas Gerais (21 vagas, 17 candidatas), o PL de Santa Catarina (7 vagas, 6) e o MDB do Pará (6 vagas, 4). Essas 7 cadeiras passam a candidatas de outros partidos pela regra de sobra.
A Câmara de 513 cadeiras, real e só de mulheres
Cada ponto é uma cadeira, colorida pelo partido. No modo real, as mulheres aparecem em cor cheia e os homens em cinza. Troque o modo e veja as cadeiras mudarem de lugar. Toque num ponto para ver quem é.
O que muda é a força eleitoral de quem senta. A mediana dos votos nominais dos 513 eleitos de verdade é de 107 mil; a das 513 deputadas do cenário, de 11,7 mil. Das 404 que entrariam no lugar de homens, 143 tiveram menos de 5 mil votos, e 24 menos de mil. A cadeira menos votada do cenário iria para Silvana Araújo (PL-MG), com 95 votos — o PL mineiro tinha 21 vagas e só 17 candidatas, e ela era uma delas. O eleito menos votado de verdade teve 13,7 mil. As mais votadas continuam sendo as que já se elegeram: Erika Hilton (PSOL-SP, 1,6 milhão), Sâmia Bomfim (PSOL-SP, 583 mil) e Julia Zanatta (PL-SC, 560 mil).
Nos governos, o efeito é parecido. Das 21 governadoras do cenário, só 8 tiveram mais de 15 de cada 100 votos; em 12 estados, a mulher mais votada não chegou a 1 de cada 100. Em 6 — Amapá, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Rondônia — nenhuma mulher concorreu ao governo.
Governadoras e senadoras nas 27 unidades da federação
Escolha o cargo e o cenário. Toque num estado para ver quem venceu e quem seria a mulher mais votada.
No Senado, as 12 eleitas de verdade estariam todas no cenário: cada uma ficou em 1º ou 2º lugar no seu estado. As outras 33 cadeiras do cenário iriam para candidatas que terminaram entre o 3º e o 11º lugar, entre elas Simone Tebet e Marina Silva em São Paulo (3º e 4º), Benedita da Silva no Rio (3º) e Gleisi Hoffmann no Paraná (4º). Nove estados tinham uma só candidata com voto válido, e 9 das 54 cadeiras ficariam vazias. No Distrito Federal, nada mudaria: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis (PL) já ganharam as duas vagas.
As Assembleias e a idade
Nas Assembleias, a falta de candidatas pesa mais: 10 legendas não tinham mulheres para todas as vagas que conquistaram, e 37 das 1.059 cadeiras passariam pela regra de sobra. A Assembleia do Acre não elegeu nenhuma mulher entre 24 deputados; a do Ceará elegeu 14 em 46, a maior proporção do país. O MDB passaria de 112 para 96 cadeiras somadas nos estados; o União Brasil, de 73 para 89.
Assembleia por partido: quem foi eleito e como seria só com mulheres
Escolha o estado. Barra cinza: cadeiras reais do partido, com a parte das mulheres em cor. Barra de baixo: cadeiras no cenário só de mulheres.
As eleitas são mais jovens que os eleitos. Na Câmara, a idade média das 109 deputadas é de 46,2 anos (mediana de 45); a dos 404 deputados, de 50,5 (mediana de 50). Nas Assembleias, 46,3 contra 49,2 anos. A Câmara só de mulheres teria média de 47,7 anos e mediana de 47 — entre as duas, porque as candidatas que entram têm idade parecida com a das já eleitas.
Idade dos eleitos, de cada 100 de cada grupo, por faixa de cinco anos
Deputadas eleitas (rosa), deputados eleitos (azul) e a bancada só de mulheres do cenário (linha). Passe o dedo ou o mouse sobre a faixa.
O exercício não diz se o Congresso seria melhor ou pior — diz onde está a distância. Nos partidos, ela é pequena: quase toda legenda tem candidatas para ocupar as próprias vagas. Nos votos, é grande: a maior parte das candidatas recebeu uma fração do que os homens eleitos da mesma lista receberam. E no governo, a distância começa antes da urna: em 6 estados não havia mulher para escolher.
Como fizemos
- Fontes. TSE: arquivos consulta_cand de 2018, 2022 e 2026 (gênero, data de nascimento, partido e situação final; o de 2026 foi gerado às 10h14 de 05/10/2026) e a totalização do 1º turno de 2026 (100% das seções) — votos por candidato a governador, senador e deputado, e as vagas de cada partido ou federação calculadas pelo próprio TSE (campo vag).
- Real. Eleitas e eleitos pela situação do consulta_cand: 513 deputados federais, 1.059 estaduais e distritais, 54 senadores e 21 governadores eleitos no 1º turno (o do Rio de Janeiro, depois da totalização refeita pelo TSE em 10/10). O painel de resultados lido às 6h57 de 05/10 ainda não trazia a situação final de parte dos deputados de MG e SP (federais) e de BA, MG, PR e SP (estaduais); para esses usamos o arquivo do TSE, que já a traz. Os números de anos anteriores são os do arquivo atual do TSE, que incorpora decisões posteriores à eleição.
- Cenário. Regra descrita no texto. Só votos nominais válidos (candidaturas com votos anulados sub judice ficam de fora). Câmara: 513 cadeiras, 7 pela regra de sobra. Assembleias: 1.059 cadeiras, 37 pela regra de sobra. Senado: 45 de 54 cadeiras preenchidas. Governo: 21 de 27.
- Limites. O cenário mantém os votos reais; numa eleição só de mulheres, eleitores e partidos se comportariam de outro modo. Gênero é o declarado no registro. Idade é a da data da eleição, não a da posse.
- Dados pessoais. Só o que é público na candidatura: nome de urna, partido, UF, votos e idade.
- Cálculo. Script eleicoes/calculos/e-se-so-as-mulheres-assumissem.py e resultado em e-se-so-as-mulheres-assumissem.json, no acervo do letramento.org.
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