Cidade e zona · São Paulo
Em São Paulo, a escola que lê melhor recebe o mesmo voto que a vizinha de renda parecida
Nas 843 escolas públicas da capital que viraram seção eleitoral, as que leem melhor deram 44 de cada 100 votos a Lula, e as que leem pior, 51. Quando se comparam escolas de famílias com renda parecida, a diferença cai para no máximo 1,6.
Reportagem · Cidade e zonaEleições 2026 · 1º turno9 de outubro de 2026
No Iguatemi, na zona leste de São Paulo, a EMEF Coelho Neto teve 228 pontos de leitura no Saeb 2025, a prova nacional do 9º ano. No Jardim Helena, também na zona leste, a EMEF Senador José Ermírio de Moraes teve 300. São 72 pontos de distância.
As famílias dos alunos das duas têm praticamente a mesma renda e o mesmo estudo, pelo índice do Inep. No domingo, 4 de outubro, as duas escolas viraram local de votação.
Na que lê pior, Lula teve 48,9 de cada 100 votos válidos para presidente. Na que lê melhor, 50,2. Uma escola lê muito melhor que a outra, e o voto quase não mudou.
Esta reportagem faz a mesma conta com 843 escolas públicas da capital. Uma ressalva antes: quem vota numa escola é o bairro, não os alunos. Os alunos do 9º ano têm 14 anos e não votam. A nota é da escola; o voto é dos adultos que moram perto dela.
Seu palpite: entre escolas de famílias com renda parecida, onde Lula teve mais votos?
Pense em duas escolas do mesmo nível de renda. Uma lê 20 pontos melhor no Saeb.
Pela leitura, parece haver diferença
Primeiro, ordenamos as 843 escolas só pela nota de leitura, da pior para a melhor, e as separamos em quatro grupos de cerca de 210.
No quarto que lê pior, Lula teve 50,7 de cada 100 votos. No quarto que lê melhor, 44,1. São 6,6 pontos de distância.
Mas as escolas que leem melhor também são as de famílias com mais renda. Pela renda, a distância no voto é quase o dobro: 53,1 no quarto mais pobre, 41,6 no mais rico, 11,5 pontos.
O voto em Lula muda mais com a renda das famílias do que com a leitura da escola
Votos em Lula para presidente, de cada 100 válidos, nos quatro grupos de cerca de 210 escolas. Troque a régua.
Com a renda parecida, a diferença some
Depois, separamos as escolas em quatro faixas de renda. Dentro de cada faixa, dividimos as escolas ao meio: a metade que lê pior e a metade que lê melhor.
Nas quatro faixas, a metade que lê melhor tem de 19 a 21 pontos a mais no Saeb. A renda das duas metades é praticamente igual.
O voto, não. Na faixa mais pobre, Lula teve 52,4 na metade que lê pior e 53,6 na que lê melhor. Na faixa mais rica, 42,3 e 41,0. Em nenhuma faixa a distância passa de 1,6 ponto, e ela muda de lado de uma faixa para outra.
Dentro da mesma faixa de renda, ler melhor não muda o voto
Votos em Lula, de cada 100 válidos. ○ metade que lê pior · ● metade que lê melhor. Toque numa faixa.
Toque ou passe o mouse numa faixa para ver as notas e os votos.
Uma segunda régua dá o mesmo resultado. O próprio Inep calcula quanto cada escola deveria tirar no Saeb, comparando com escolas de famílias parecidas. Nas 196 escolas que leem 10 pontos ou mais acima do esperado, Lula teve 48,1. Nas 140 que leem 10 pontos ou mais abaixo, 47,6.
Escola por escola
O gráfico abaixo põe cada escola num ponto. Com todas juntas, os pontos descem para a direita: quem lê melhor vota menos em Lula. Escolha uma faixa de renda e veja a nuvem ficar deitada.
Cada ponto é uma escola: leitura e voto em Lula
Nota de leitura do 9º ano (Saeb 2025) e votos em Lula de cada 100 válidos. A linha mostra a direção média.
Toque num ponto para ver a escola.
Com todas as escolas, cada 10 pontos a mais de leitura vêm com 1,7 voto a menos para Lula, em cada 100. Descontada a renda, são 0,1 voto. Na prática, nada.
Para governador, o retrato se repete. Fernando Haddad teve 52,0 e 53,3 de cada 100 votos nas duas metades da faixa mais pobre, e 41,8 e 40,5 nas da faixa mais rica.
O que o dado diz e o que não diz
O dado diz que, em São Paulo, a nota de leitura da escola não separa o voto do bairro quando a renda das famílias é parecida. O que separa é a renda.
O dado não diz nada sobre como votam os alunos, nem seus pais. Muitos eleitores de uma escola não têm filho nela. A escola é só o prédio onde o bairro vota.
Também não diz que ler melhor não importa. A leitura do 9º ano mede o que a escola ensina hoje a crianças de 14 anos. O voto de 2026 é dos adultos que estudaram há 10, 30 ou 50 anos, quase sempre em outras escolas.
Como fizemos
- Votos. TSE, votação por seção do 1º turno de 2026 (arquivo final), somada por local de votação na capital paulista. Votos válidos para presidente e para governador.
- Locais e escolas. Dos 2.044 locais de votação da capital, 1.646 foram casados com uma escola pública do Censo Escolar 2025 pelo nome e pela distância (até 600 metros). O casamento é o mesmo da reportagem São Paulo zona a zona.
- Leitura. Inep, Saeb 2025, nota de Língua Portuguesa do 9º ano por escola. Ficam as 843 escolas com essa nota e com INSE. Elas reúnem 4,2 milhões de eleitores e 2,98 milhões de votos válidos para presidente.
- Renda. INSE 2023 do Inep: índice de renda, bens e estudo dos pais dos alunos da escola. Faixas: quatro grupos de 210 ou 211 escolas. Leitura esperada: a coluna de escolas similares do Saeb 2025.
- Contas. Os votos de cada grupo são somados antes de dividir. Correlação entre leitura e voto em Lula: −0,32 com todas as escolas; −0,02 descontada a renda (correlação parcial pelos resíduos de uma reta em INSE). Correlação entre leitura e renda: 0,54.
- Limites. A comparação é entre locais, não entre pessoas: quem vota na escola não é quem estuda nela. Ficam fora as escolas sem 9º ano avaliado e os locais em escolas particulares, faculdades e outros prédios. O INSE é de 2023. O casamento por nome pode errar em poucos casos.
- Associação não é causa. O texto descreve onde se votou. Não explica por quê.
- Cálculo. eleicoes/calculos/sao-paulo-as-escolas-pela-leitura.py, com o resultado em sao-paulo-as-escolas-pela-leitura.json, no acervo do letramento.org.
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Abrindo o balcão…