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Municípios e leitura · Quem ensina a ler

Onde o professor tem voto, quase sempre é um professor só

Em 420 cidades, candidatos a deputado federal que se declararam professores levaram 10 ou mais de cada 100 votos. Em 412 delas, uma só pessoa fez metade ou mais desse voto. A nota de leitura das escolas não acompanha.

Reportagem · Municípios e leituraEleições 2026 · 1º turno10 de outubro de 2026

Casinhas, no interior de Pernambuco, deu 8.964 votos a candidatos a deputado federal no dia 4 de outubro. Seis desses candidatos escreveram “professor” na ficha que entregaram ao TSE.

Professor é o ofício que ensina o país a ler. Esta reportagem procura onde esse ofício teve voto, e se o voto anda junto com a leitura das escolas da cidade.

Seu palpite: de cada 100 votos de Casinhas para deputado federal, quantos foram para os seis professores?

Arraste e depois clique em “Ver o dado”.

10

No país, 3 de cada 100

Em 2026, 929 candidatos a deputado federal, estadual ou distrital se declararam professores. Eram 5 de cada 100 candidatos.

Para deputado federal, os professores somaram 3,0 milhões de votos. É 2,7 de cada 100 votos dados a um candidato. Para deputado estadual, 3,7 milhões: 3,5 de cada 100.

Na cidade do meio da fila, o professor teve 0,5 de cada 100 votos para federal e 1,3 para estadual. Em 163 cidades, nenhum professor teve um só voto para federal.

Um nome por cidade

Em 420 cidades, os professores passaram de 10 de cada 100 votos para federal. Em 412 delas, um único professor fez metade ou mais desse voto.

Nessas 420 cidades, o professor mais votado é sempre um de 38 nomes. Professor Pedro Uczai (PT) lidera em 109 delas, todas em Santa Catarina. Flávia Morais (MDB) lidera em 101, em Goiás.

Fizemos uma conta simples: em cada cidade, tiramos os três professores mais votados ali. Das 420, nenhuma fica com 10 ou mais. No país inteiro, só 56 cidades guardam 1 ou mais de cada 100 votos para federal.

Onde o professor teve mais votos? Agora tire os três maiores

As 12 cidades com mais votos em professores, de cada 100 votos no cargo (cidades com 5 mil votos ou mais). Aperte o botão rosa.

    Toque numa cidade para ver a conta.

    Fonte: TSE, votos por município do 1º turno de 2026, só votos válidos dados a candidatos. Professor = ocupação declarada na ficha do TSE.

    Para deputado estadual, o desenho se repete. São 328 cidades com 10 ou mais de cada 100 votos em professores. Em 315, um só professor fez metade ou mais. Sem os três maiores, nenhuma passa de 10.

    O voto concentrado também aparece em cidade grande. Em Santo André (SP), 28 de cada 100 votos para federal foram para professores; Paulo Serra (PSDB) teve 26,8 sozinho. Em Ribeirão das Neves (MG), foram 38; Junynho Martins (PP) teve 37,6 e não se elegeu.

    A leitura não acompanha

    Cada cidade tem uma nota de leitura: a do Saeb de Língua Portuguesa no 5º ano, nas escolas públicas. Dividimos as 5.517 cidades com nota em dez grupos de cerca de 550, da que lê pior à que lê melhor.

    Nas 552 cidades que leem pior, os professores tiveram 1,7 de cada 100 votos para federal. Nas 552 que leem melhor, 2,2. O pico fica no meio da fila, com 4,3. Não há escada.

    As cidades que leem melhor dão mais votos a professores?

    De cada 100 votos no cargo, quantos foram para professores, em dez grupos de cidades. Do grupo que lê pior (em cima) ao que lê melhor (embaixo).

    Toque numa barra para ver o grupo.

    Nota: Saeb 2025 de Língua Portuguesa, 5º ano, rede pública (2023 onde 2025 não saiu), INEP. Cada grupo soma os votos de todas as suas cidades.

    A comparação entre estados engana. Deputado só recebe voto no próprio estado, e cada estado tem seus candidatos. Por isso olhamos dentro de cada estado: a metade das cidades que lê melhor contra a metade que lê pior.

    Em 14 dos 26 estados, a metade que lê melhor deu mais votos a professores para federal. Nos outros 12, deu menos. Para estadual, também 14 de 26. É o resultado de uma moeda jogada para o alto.

    Casinhas mostra o mesmo. Suas escolas tiraram 264 pontos no Saeb, entre as 10 de cada 100 cidades que leem melhor. Vizinhas que leem bem menos, como Santa Maria do Cambucá (194 pontos), também deram 44 de cada 100 votos à mesma candidata.

    Procure a sua cidade

    De cada 100 votos válidos dados a candidatos do cargo na cidade. “Sem os 3 maiores” tira os três professores mais votados ali e refaz a conta.

    A ficha do TSE diz o que o candidato escolheu escrever. O voto diz quem a cidade conhece. Em 2026, onde o professor teve muito voto, a cidade votou numa pessoa, não numa profissão. E a nota de leitura das escolas não muda esse retrato.

    Como fizemos

    • Votos. Arquivo votacao_candidato_munzona_2026 do TSE (1º turno, 04/10/2026), somado por município. Contamos só votos válidos dados a candidatos a deputado federal, estadual e distrital (o distrital do DF entra em “estadual”). Voto de legenda não entra: ele não aparece por candidato. 5.571 municípios; votos do exterior não entram, porque não há eleição de deputado lá.
    • Professor. Candidato cuja ocupação declarada ao TSE começa com “Professor” (ensino fundamental, médio, superior, instrutor de formação profissional), que chegou à urna. Um registro por candidatura. São 929 em 2026, com 40 eleitos — os mesmos números de Os professores eleitos. Pelo mesmo filtro, eram 1.521 em 2018 e 1.222 em 2022.
    • Ranking de cidades. Só cidades com 5 mil votos ou mais no cargo, para que uma cidade minúscula não lidere por acaso: 3.383 para federal, 3.266 para estadual.
    • Sem os 3 maiores. Em cada cidade, tiramos os votos dos três professores mais votados ali, no numerador e no denominador, e refizemos a conta. É o teste de quanto do voto em professor é de poucos nomes.
    • Leitura. Saeb de Língua Portuguesa do 5º ano, rede pública, por município (INEP, 2025; 2023 onde 2025 não saiu): 5.517 cidades. Grupos = decis de cidades por nota. A medida de associação (Spearman, de −1 a 1) entre nota e voto em professor foi 0,06 para federal e 0,06 para estadual: perto de zero.
    • Contrafactual. Dentro de cada estado com 10 ou mais cidades (26; o DF fica fora por ser uma só), comparamos a metade das cidades com nota acima da mediana do estado com a metade abaixo. Se a leitura acompanhasse o voto, a metade que lê melhor ganharia em quase todos. Ganhou em 14 de 26, nos dois cargos.
    • Associação não é causa. O texto descreve onde se votou em professores. Não diz por que, nem que a leitura das escolas mude o voto, ou o contrário.
    • Limites. A ocupação é declarada pelo candidato; o TSE não confere se ele dá aula. Professor que escreveu “deputado” na ficha não entra. Os números podem mudar com decisões judiciais e retotalizações depois de 05/10/2026.
    • Cálculo. eleicoes/calculos/onde-o-professor-tem-voto.py e o resultado em onde-o-professor-tem-voto.json, no acervo do letramento.org.

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