Municípios e leitura · O voto facultativo
Dispensados de votar, 7 em cada 10 analfabetos adultos foram à urna mesmo assim
No 1º turno de 2026, votaram 69% dos eleitores de 18 a 69 anos que o cadastro do TSE registra como analfabetos. Os alfabetizados da mesma idade, obrigados, foram 87%. A conta geral, de 52%, mistura os de 70 anos ou mais, dispensados duas vezes: deles, 27% votaram.
Reportagem · Municípios e leituraEleições 2026 · 1º turno21 de outubro de 2026
Ninheira, no norte de Minas Gerais, tem 8.822 eleitores. Quando tirou o título, cada um respondeu até onde estudou. Responderam “analfabeto” 2.435 deles. É mais de 1 em cada 4 eleitores da cidade, a maior fatia do país.
A Constituição dispensa essas pessoas de votar. O voto é obrigatório dos 18 aos 69 anos, mas facultativo para quem não sabe ler, para quem tem 16 ou 17 anos e para quem passou dos 70. Em 4 de outubro, 1.585 dos 2.435 analfabetos de Ninheira foram à seção eleitoral. Ninguém mandou.
No país, o cadastro do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, registra 5.519.686 eleitores analfabetos. No 1º turno de 2026, 52 de cada 100 votaram. Entre os eleitores com faculdade completa, foram 86 de cada 100.
2.878.137
eleitores registrados como analfabetos votaram no 1º turno de 2026, sem ser obrigados
Quatro em cada dez analfabetos têm 70 anos ou mais
A conta de 52 junta dois grupos que a lei trata de jeito diferente. O analfabeto de 18 a 69 anos está dispensado só porque não lê. O de 70 anos ou mais está dispensado duas vezes: pela leitura e pela idade.
Os de 70 ou mais são 2.198.854, quatro de cada dez analfabetos do cadastro. Deles, 27 de cada 100 votaram. Entre os de 18 a 69 anos, a conta sobe para 69 de cada 100.
O analfabeto é quem menos vai à urna, em qualquer idade
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Ao lado de quem tem a mesma idade, o analfabeto vota menos
Para comparar o dispensado com o obrigado, é preciso pôr lado a lado gente da mesma idade. Quem tem de 20 a 34 anos vota menos que quem tem de 45 a 69. E 83 de cada 100 analfabetos de 18 a 69 anos estão nessa faixa mais velha, de 45 a 69.
Fizemos a conta faixa por faixa de idade. Se os 3.316.541 analfabetos de 18 a 69 anos votassem como os alfabetizados da mesma idade, 87 de cada 100 teriam ido à urna. Foram 69. A diferença dá cerca de 595 mil eleitores.
A distância aparece em todas as idades. Aos 65 a 69 anos, de cada 100, votaram 88 alfabetizados e 64 analfabetos. O dado mede a distância, não o motivo: não diz se pesa a dispensa, a saúde, a distância até a seção ou um cadastro desatualizado.
Em todas as idades, o alfabetizado vota mais que o analfabeto
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Em Ninheira, a idade vira a conta do avesso
Volte a Ninheira e olhe só os eleitores de 18 a 69 anos. De um lado, o analfabeto, dispensado. Do outro, o alfabetizado, obrigado.
Em Ninheira, quem foi mais à urna?
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Pela conta simples, o dispensado votou mais: 81 de cada 100, contra 74 do obrigado. Mas os alfabetizados de Ninheira são mais jovens, e o jovem vota menos. Na mesma idade dos analfabetos, o alfabetizado iria 85 vezes em cada 100. O analfabeto foi 81.
A virada some. Ninheira segue a regra do país, com distância menor: 4 votos em cada 100, contra 18 no Brasil.
O título guarda a escolaridade do dia em que foi tirado
A escolaridade do cadastro é a que o eleitor declarou ao tirar o título ou ao atualizá-lo. Quem aprendeu a ler depois e não voltou ao cartório eleitoral continua analfabeto no papel. Nesta reportagem, analfabeto é quem o cadastro chama assim.
Em Ninheira, o Censo de 2022 bateu de porta em porta e contou 23 de cada 100 moradores com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever. O cadastro dá 28 de cada 100 eleitores. Em outra reportagem, mostramos que em São Paulo, no Rio e no Piauí o cadastro costuma ter menos analfabetos que o Censo. Em Ninheira, tem mais.
Em 2022, menos da metade foi
Na eleição de 2022, 48 de cada 100 analfabetos do cadastro votaram no 1º turno. Em 2026, 52. Quem mais andou foi o de 70 anos ou mais: de 18 para 27 de cada 100. O de 18 a 69 anos foi de 66 para 69.
O cadastro também encolheu. Eram 6.321.456 analfabetos em 2022. Agora são 5.519.686.
No dia 4, em Ninheira, 1.585 eleitores que o cadastro chama de analfabetos entraram numa seção, sem lei que mandasse. No país inteiro, 2.878.137 fizeram o mesmo caminho.
Como fizemos
- Comparecimento: TSE, perfil do comparecimento e da abstenção (perfil_comparecimento_abstencao_2026 e _2022), baixados em 19 e 21/10/2026. Somamos os arquivos das 27 UFs e do exterior, só o 1º turno, por escolaridade (
DS_GRAU_INSTRUCAO; em 2022,DS_GRAU_ESCOLARIDADE) e faixa de idade (DS_FAIXA_ETARIA). “Votou” é o comparecimento: inclui quem votou em branco ou anulou. Eleitores: 158.745.463 aptos em 2026; 153.553.888 em 2022. - Facultativo: o próprio TSE classifica o eleitor. Os 2.878.137 analfabetos que compareceram estão todos na coluna de voto facultativo (
QT_COMPAREC_FACULTATIVO); nenhum na de obrigatório. A regra está na Constituição, art. 14, § 1º, II. - Mesma idade: para cada uma das 13 faixas de idade do TSE entre 18 e 69 anos, aplicamos aos analfabetos a taxa de comparecimento dos outros eleitores da mesma faixa (todos obrigados). No Brasil, isso dá 2.870.015 eleitores esperados, contra 2.275.424 que votaram (87 e 69 de cada 100). Em Ninheira, 1.263 esperados, contra 1.207 (85 e 81). Os 70 anos ou mais e os de 16 e 17 ficam fora dessa conta, porque também são dispensados.
- Ninheira: município 41122 no código do TSE. Analfabetos de 70 anos ou mais: 950, dos quais 378 votaram. Censo: IBGE, Censo 2022, tabela 9543 do SIDRA (taxa de alfabetização de 15 anos ou mais): 22,6% não sabem ler e escrever. Cadastro: 27,6% dos aptos se declararam analfabetos. A maior fatia entre os 5.571 municípios do cadastro do TSE.
- O que buscamos e não achamos: o TSE não publica o comparecimento cruzado com renda nem com a distância até a seção. Não há registro de quando o eleitor declarou a escolaridade, nem de quem a atualizou.
- Limites: analfabeto é o que o cadastro registra, não o que o Censo mede. O cadastro pode guardar eleitores que morreram e ainda não saíram dele, o que pesaria mais entre os mais velhos. Comparar grupos mede associação, não causa: a dispensa é uma das diferenças entre o analfabeto e o alfabetizado, não a única.
- Cálculo:
eleicoes/calculos/o-analfabeto-que-foi-votar.py(resultado emo-analfabeto-que-foi-votar.json).
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