Municípios e leitura · Cadastro eleitoral
No título de eleitor, o Piauí tem metade dos analfabetos que o Censo encontrou batendo de porta em porta
No cadastro do TSE, 8% dos eleitores do Piauí são analfabetos; no Censo 2022, 17% dos moradores de 15 anos ou mais. O eleitor declara a escolaridade ao tirar o título e ninguém confere. Em SP, RJ e PI, o papel mostra menos analfabetos que o Censo em 950 de 961 cidades, mesmo comparando idade com idade.
Reportagem · Municípios e leituraEleições 20269 de outubro de 2026
Aroeiras do Itaim, no sul do Piauí, tem 4.358 eleitores. O Censo 2022 bateu de porta em porta e contou: 35 de cada 100 moradores com 15 anos ou mais não sabem ler nem escrever. O cadastro eleitoral da cidade diz outra coisa. Lá, só 8 de cada 100 eleitores aparecem como analfabetos.
Outros 21,5 de cada 100 marcaram “lê e escreve”. É a resposta de quem diz saber ler, mas nunca frequentou a escola. Ninguém confere. O eleitor declara a escolaridade quando tira o título, e quase nunca volta para atualizar.
Em quantas cidades o papel mostra menos analfabetos que o Censo?
São 961 cidades em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Piauí. Arraste.
Dado: 950 cidades, 99 de cada 100. Seu palpite: . Todas as 224 do Piauí e todas as 92 do Rio. Em São Paulo, 634 de 645.
O papel conta a metade
No Piauí, o cadastro registra 208.581 eleitores analfabetos. São 7,7 de cada 100. O Censo mede 17,2 de cada 100 entre os moradores com 15 anos ou mais.
No Rio de Janeiro, o cadastro dá 1,8 de cada 100. O Censo, 3,3. Em São Paulo, 1,7 contra 3,1. No Piauí, o papel mostra menos da metade do que o Censo mede. Em São Paulo e no Rio, pouco mais da metade.
Quantos não sabem ler, de cada 100?
Cadastro eleitoral de julho de 2026 contra o Censo 2022, por estado.
A diferença não é a idade
Alguém pode pensar: o eleitor tem 16 anos ou mais, o Censo começa aos 15. Isso não explica a distância. Os jovens são os que mais leem, e tirar um ano de jovens do Censo quase não mexe na taxa.
Fizemos a conta idade por idade. Se o cadastro espelhasse o Censo em cada faixa de idade, teria 2,2 milhões de analfabetos nos três estados. Tem 1,0 milhão. Faltam 1,2 milhão de pessoas.
A distância aparece em todas as idades. Entre os eleitores do Piauí com 65 anos ou mais, o Censo mede 48 analfabetos de cada 100. O cadastro mostra 24.
Em que idade o papel e a realidade se afastam?
Analfabetos de cada 100, por faixa de idade. Escolha o estado.
- Censo 2022 (analfabetos)
- Cadastro: “analfabeto”
- Cadastro: “lê e escreve”
A caixa do meio
Onde foram parar os que faltam? O dado não diz. Mas mostra uma pista: a caixa “lê e escreve”. No Rio de Janeiro, 15 de cada 100 eleitores com 65 anos ou mais marcaram essa resposta. O Censo conta 9 de cada 100 analfabetos nessa idade.
Por isso decidimos assim: “analfabeto” no cadastro é só quem marcou “analfabeto”. Quem diz ler e escrever se declarou alfabetizado, e é assim que o TSE o registra. Somando as duas caixas, o cadastro passa do Censo no Piauí: 20,4 de cada 100. A verdade da cidade fica em algum lugar entre as duas caixas, e o formulário não diz onde.
Há uma segunda pista, que o dado não mede. Para quem não sabe ler, votar é opcional: a Constituição dispensa o analfabeto da obrigação. Quem nunca tirou o título não está no cadastro, e por isso não entra em nenhuma das contas.
Cidade por cidade
A régua do cadastro é baixa em todo lugar, mas segue o desenho do Censo. Onde o Censo mede mais analfabetos, o cadastro também registra mais. Na cidade típica do Piauí, o papel registra 38 analfabetos para cada 100 que o Censo conta.
Teresina, a capital, tem 592 mil eleitores. O cadastro dá 2,1 analfabetos de cada 100. O Censo mede 7,1.
Cada ponto é uma cidade. Quase todas ficam abaixo da linha
Na linha, o cadastro e o Censo concordam. Abaixo dela, o papel mostra menos analfabetos. Toque num ponto ou busque a cidade.
Toque num ponto.
Em São Paulo, 11 cidades fogem à regra. Em Monte Mor, o cadastro dá 6,3 de cada 100 e o Censo, 4,4. Nenhuma tem mais de 50 mil eleitores.
Como fizemos
- Cadastro: TSE, perfil do eleitorado por seção eleitoral, gerado em 14/07/2026 (arquivos perfil_eleitor_secao_2026 de SP, RJ e PI), campo de grau de escolaridade. São 49,7 milhões de eleitores em 961 municípios. A escolaridade é declarada pelo próprio eleitor e não é conferida.
- Só três estados: são os únicos com o arquivo por seção baixado nesta redação. O Piauí representa um estado com muito analfabetismo; SP e RJ, dois com pouco. Os números não valem para o Brasil.
- Censo: IBGE, Censo 2022, tabela 9543 do SIDRA, taxa de alfabetização das pessoas de 15 anos ou mais, por município e por estado e faixa de idade. Analfabetismo = 100 menos a taxa.
- Idades diferentes: o cadastro começa aos 16 anos, o Censo aos 15. Por isso também fizemos a conta por idade: aplicamos a taxa do Censo de cada faixa (15–19, 20–24, 25–34, 35–44, 45–54, 55–64, 65+) ao número de eleitores da mesma faixa. Daí vêm os 2,2 milhões esperados contra 1,0 milhão registrados.
- Datas diferentes: o Censo é de 2022; o cadastro, de 2026. Em quatro anos, a taxa muda pouco, e não explica uma diferença de metade.
- Decisão sobre “lê e escreve”: não entra no numerador de analfabetos. Mostramos essa caixa à parte, e a soma das duas aparece só como teto.
- O que o dado não diz: se a diferença vem de quem nunca tirou o título, de quem declarou mais do que sabe ou de quem aprendeu depois. Mostramos a distância, não a causa.
- Cálculo:
eleicoes/calculos/o-cadastro-e-o-censo.py.
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