Belo Horizonte e Salvador · 1º turno 2026
Em Salvador, Lula venceu em todas as escolas públicas onde se vota. Em Belo Horizonte, em uma de cada cinco
Nas 264 escolas públicas de Salvador que são locais de votação, Lula ficou à frente em todas; nas 317 de Belo Horizonte, em 57, ou 18%. Escola a escola, o voto nele desce com o nível socioeconômico dos alunos nas duas capitais. Em escolas de mesmo nível, Lula teve 45% em BH e 67% em Salvador.
ReportagemCidade e zona7 de outubro de 2026
Na Escola Municipal Doutor Júlio Soares, no bairro Granja de Freitas, os alunos têm o nível socioeconômico mais baixo entre as escolas públicas onde Belo Horizonte vota. No domingo, 55 de cada 100 eleitores que votaram ali escolheram Lula (PT). É um dos poucos lugares da cidade em que ele ficou à frente de Flávio Bolsonaro (PL): só 57 das 317 escolas públicas analisadas.
Em Salvador, a escola pública onde se vota com os alunos de nível mais alto é o Colégio Estadual Dona Leonor Calmon, em Cajazeiras. Ali, Lula teve 63 de cada 100 votos. Ele ficou à frente nas 264 escolas públicas da cidade que entraram na conta. Todas. Contando também colégios particulares, faculdades e outros prédios, Lula perdeu em só 7 dos 455 locais de votação de Salvador. Em Belo Horizonte, venceu em 94 dos 443.
Antes de seguir, um teste. Ele mostra, em um número, o que esta reportagem encontrou.
Escolas do mesmo nível, duas cidades: chute antes de ver
Nas escolas públicas de Belo Horizonte onde se vota e cujos alunos têm nível socioeconômico intermediário (INSE entre 4,5 e 5), Lula teve 45 de cada 100 votos válidos. Quanto você acha que ele teve em Salvador, em escolas do mesmo nível? Arraste e confira.
O INSE é o Indicador de Nível Socioeconômico que o Inep calcula para cada escola. Ele sai do questionário que os alunos respondem no Saeb, a prova nacional de leitura e matemática, e junta a renda da casa, os bens da família e a escolaridade dos pais. A escala vai de cerca de 3 a 6. Quanto mais alto, mais recursos têm as famílias de quem estuda ali.
Em Belo Horizonte, 75 de cada 100 eleitores votam numa escola pública com INSE; em Salvador, 58 de cada 100. Isso permite uma comparação fina: o voto de quem vota numa escola ao lado do nível das crianças que estudam nela. Entraram na conta 317 escolas em Belo Horizonte e 264 em Salvador, cada uma com pelo menos 300 votos válidos.
A mesma ladeira, em alturas diferentes
A pauta desta reportagem perguntava onde o voto acompanha o nível socioeconômico das escolas e onde não acompanha. Escola a escola, ele acompanha nas duas cidades, e quase na mesma medida. Em Belo Horizonte, cada ponto a mais no INSE da escola vem com 7,7 pontos a menos para Lula. Em Salvador, com 7,4 pontos a menos.
O que muda é a altura de onde a ladeira parte. Na cidade inteira, Lula teve 65,3% dos votos válidos em Salvador e 41,4% em Belo Horizonte. Flávio Bolsonaro teve 48,3% na capital mineira e 27,0% na baiana.
Nas duas cidades, quanto mais alto o INSE da escola, menos votos para Lula — mas Salvador começa bem mais alto
Cada ponto é uma escola pública onde se vota. Para a direita, escolas de alunos com mais renda e escolaridade em casa; para cima, mais votos para Lula. Toque ou passe o mouse num ponto para ver a escola.
As duas nuvens de pontos quase não se encontram. As escolas públicas onde Salvador vota têm INSE médio de 4,48; as de Belo Horizonte, de 5,21. Em Salvador, só 4 das 264 escolas passam de 5. Em Belo Horizonte, 246 das 317 passam.
Onde as duas redes se sobrepõem, na faixa de 4,5 a 5, a diferença aparece inteira. Nessas escolas, Lula teve 45 de cada 100 votos em Belo Horizonte e 67 de cada 100 em Salvador.
Dá para fazer a conta ao contrário. Imagine Belo Horizonte votando pela sua própria reta, mas com escolas tão pobres quanto as de Salvador. Lula teria cerca de 48 de cada 100 votos. Em Salvador, ele teve 67. O nível das escolas não explica os cerca de 19 pontos que sobram.
No mesmo degrau de nível socioeconômico, Salvador vota mais em Lula
Votos válidos para Lula nas escolas-local, em faixas de INSE iguais para as duas cidades. Troque o ano.
Em 2022 o desenho era o mesmo. Na faixa de 4,5 a 5, Lula teve 47 de cada 100 votos em Belo Horizonte e 68 em Salvador.
Por zona eleitoral, a ligação some
A pauta pedia a comparação por zona eleitoral. Em Belo Horizonte, esse recorte esconde o retrato. As 18 zonas da cidade deram a Lula entre 38,8 e 44,8 de cada 100 votos, e Flávio Bolsonaro venceu em todas. Entre as zonas, o INSE médio das escolas e o voto quase não andam juntos: correlação de −0,07.
O motivo é que cada zona junta bairros diferentes. A zona 26, de maior INSE médio, reúne Sagrada Família, Nova Floresta e Horto; ali Lula teve 44,7, o segundo maior resultado dele entre as 18 zonas. Somados, os extremos de cada zona se anulam. Escola a escola, a ligação volta: correlação de −0,46.
Em Salvador, Lula venceu nas 19 zonas. A zona em que ele foi pior é a 13, de Pituba e Itaigara, bairros de classe média alta: 53,8 de cada 100. As escolas públicas dessa zona, porém, têm INSE (4,52) mais baixo que o de outras 6 zonas da cidade. O INSE descreve quem estuda na escola pública. Nos bairros mais ricos, isso é só uma parte de quem mora e vota ali.
E a leitura das crianças?
O Saeb também mede quanto as crianças leem. Nas escolas de Belo Horizonte em que o 5º ano tirou nota mais alta em português, Lula teve menos votos: correlação de −0,37, em 222 escolas. Em Salvador, a ligação quase some: −0,19, em 125 escolas. Nas duas cidades, a nota de leitura acompanha o voto menos do que o INSE das famílias.
Associação não é causa. O dado não diz que a escola faz o voto. Diz que, dentro de cada cidade, quem vota numa escola de alunos mais pobres escolheu mais Lula. E diz que, em escolas do mesmo nível, Salvador deu a Lula 22 pontos a mais do que Belo Horizonte.
Como fizemos
- Votos de 2026: TSE, 1º turno, presidente. Por local de votação, a soma dos boletins de urna: 4.926 de 4.927 seções em Belo Horizonte e 5.124 de 5.124 em Salvador. Conferência: somados, os boletins dão a Lula 41,4% em BH e 65,3% em Salvador; a totalização oficial, 41,4% e 65,3%. Por zona: a totalização do TSE, 100% apurada (18 zonas em BH, 19 em Salvador). Porcentagens sobre os votos válidos.
- Votos de 2022: votação por seção do TSE, somada por local; só entram locais com o mesmo número e nome parecido em 2022 e 2026 (308 em BH, 239 em Salvador).
- Escolas: cada local de votação foi ligado à escola pública do Censo Escolar 2025 mais próxima com nome compatível (até 800 m e nome quase igual, ou até 200 m e nome parecido, ou mesmo CEP). Entram as escolas com INSE 2023 e ao menos 300 votos válidos: 317 em BH e 264 em Salvador. Escolas particulares, faculdades e outros prédios ficam fora do cruzamento; entram só na contagem de todos os locais com ao menos 300 votos válidos. Os locais ligados a escolas com INSE reúnem 75 de cada 100 eleitores de BH e 58 de cada 100 de Salvador.
- Educação: INSE 2023 por escola (Inep) e Saeb 2025, língua portuguesa do 5º ano.
- Reta e correlação: regressão linear simples da fatia de Lula sobre o INSE, uma escola por ponto. A correlação vai de −1 a 1; perto de zero, as duas coisas não andam juntas.
- Limites: associação não é causa. O INSE descreve os alunos da escola, não os eleitores que votam nela. A ligação entre local e escola é automática e pode errar em alguns casos. Salvador quase não tem escola pública acima de INSE 5, então a comparação direta vale só para a faixa que as duas cidades têm. O mesmo INSE de 2023 serve para 2022 e 2026.
- Cálculo:
eleicoes/calculos/belo-horizonte-e-salvador.py(números) e_pagina.py(texto).
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