letramento

em construção

A primeira palavra que aprendes não te diz o mundo — te dá onde segurar nele.

Chamas de árvore o que era só massa vertical, e a massa passa a ter tronco, copa, sombra. Chamas de dor o que era só um erro no corpo, e o corpo aprende a chorar por causa do nome. A palavra não descreve — instala.

Depois vêm as coisas que ninguém vê. Saudade. Justiça. Pátria. Mercado. Amanhã. Nomeias com a mesma boca com que dizes água, e o invisível passa a pesar como o visível. O que tocas se confunde com o que te disseram tocar.

A frase que dizes já contém a próxima. Cada palavra cabe dentro de outra que ainda não veio. É uma escada que se estende ao pisares nela — não termina, não pode terminar; se terminasse, o mundo desmoronaria por falta de mais uma palavra.

Aí chegou alguém e te disse que assim tu não sabes falar.

Que o certo é outro. Que o teu “nós fumo” é feio, que o teu “eles ganharo” é errado, que o teu jeito de dizer não passa no cartório. Não passa mesmo. A norma culta não é ferramenta de precisão. É cerca. Serve para dizer quem entra e quem fica fora — em concurso, em tribunal, em mesa de jantar. Chamam de português. É filtro.

E, no entanto, é a mesma língua que sabe o teu nome. A que te chama para o jantar. A que diz volta. A que diz fica.

Se a linguagem é o que te fez humano, quem decide o teu português decide o quê de ti?

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