letramentoEleiçõesReportagem
← Eleições

Escolas e seções · A língua da escola

Oito em cada dez escolas indígenas onde se votou ensinam numa língua que a urna não escreve

No 1º turno de 2026, 383 locais de votação ficavam em escolas indígenas, com 221 mil eleitores. Ensinam em 73 línguas indígenas; a urna escreve em português. Nas seções dessas escolas, houve um pouco menos voto em branco e nulo que nas escolas rurais vizinhas.

Reportagem · Escolas e seçõesEleições 2026 · 1º turno11 de outubro de 2026

Em São Paulo de Olivença, no Amazonas, o Centro Tikuna Pedro Inácio Pinheiro ensina só em tikuna. É o que a escola declarou ao Censo Escolar de 2025.

No domingo, 4 de outubro, 1.918 eleitores estavam inscritos para votar nas cinco seções dessa escola. A urna que chegou ali escreve em português. As teclas dizem BRANCO, CORRIGE e CONFIRMA.

A escola é um dos 383 locais de votação instalados em escolas indígenas no 1º turno. Somam 876 seções e 221.435 eleitores, em 148 municípios de 21 estados.

Oito de cada dez dessas escolas ensinam numa língua indígena. Em 282 locais, a escola ensina na língua indígena e em português. Em 24, só na língua indígena. Nos outros 77, só em português.

Votar numa escola indígena não faz de ninguém indígena. A seção recebe quem mora perto, e o cadastro do TSE não diz quem é cada eleitor. Esta reportagem conta lugares, não pessoas.

383locais de votação em escolas indígenas
221.435eleitores estavam inscritos neles
73línguas indígenas são ensinadas nessas escolas

O Amazonas tem mais eleitores nessas escolas

No Amazonas, 48.987 eleitores estavam inscritos em escolas indígenas. Em Mato Grosso do Sul, 34.208. Em Roraima, 28.810.

Roraima tem mais locais na conta: 77. São pequenos, com 374 eleitores em média.

Dos 383 locais, 365 ficam em terra indígena, diz o Censo. Os outros 18 ficam fora dela.

Os 383 locais de votação em escolas indígenas, um por quadrado

Toque num quadrado. Veja a escola e a língua em que ela ensina.

língua indígena e portuguêssó língua indígenasó português

Toque num quadrado.

Cada linha é um estado. Primeiro o estado com mais eleitores nessas escolas; dentro dele, o local com mais eleitores. Fonte: TSE e Censo Escolar 2025.

As escolas onde se votou ensinam em 73 línguas

O Censo Escolar pergunta a cada escola indígena em que línguas ela ensina. Cabem até três.

Nas escolas onde se votou, aparecem 73 línguas com nome. Em 17 locais, a escola marcou “outras línguas”, sem dizer qual.

No país inteiro, as 3.712 escolas indígenas em funcionamento declaram 194 línguas.

O tikuna tem mais eleitores: 24.906, em 30 locais do alto Solimões, no Amazonas. O makuxi está em mais locais: 61, em Roraima.

Depois vêm o guarani kaiowá, em Mato Grosso do Sul, e o wapichana, em Roraima. O terena vem em quinto.

As línguas das escolas onde se votou, do tamanho dos seus eleitores

Toque numa língua. Veja onde ela é ensinada.

Toque numa língua.

Quanto maior o nome, mais eleitores votam em escolas que ensinam essa língua. Uma escola pode ensinar até três línguas e conta em cada uma. Em cinza, “outras línguas”. Fonte: Censo Escolar 2025 e TSE.

Sete de cada dez não têm biblioteca nem sala de leitura

Em 282 dessas escolas, a aula é dada em duas línguas. O que falta é o lugar para ler.

Em 265 dos 383 locais, a escola não tem biblioteca nem sala de leitura. São 69 de cada 100. Entre todas as escolas onde se votou no Brasil, são 33.

A falta também é do campo. Nas escolas rurais que não são indígenas e foram local de votação, 62 de cada 100 não têm uma nem outra.

Em 278 dos 383, a escola tem professor de língua indígena. Em 182, a escola diz que usa material de ensino indígena.

A urna em português não teve mais voto em branco. Teve um pouco menos

Para presidente, nas seções dessas escolas, 2,9 de cada 100 votos foram em branco ou nulos. No Brasil, foram 4,8.

A comparação justa é com o vizinho: as escolas rurais da mesma cidade que não são indígenas. Nelas, a conta dá 3,1.

A diferença está no voto em branco. Nas escolas indígenas, 0,7 de cada 100 votos. Nas rurais vizinhas, 0,9. O voto nulo ficou quase igual: 2,2 e 2,3.

É pouco. Se as escolas indígenas votassem como as rurais vizinhas, teriam uns 330 votos em branco ou nulos a mais, num total de 133 mil.

Pouco, mas não é acaso. Sorteamos 2.000 vezes quais escolas de cada cidade seriam as indígenas. Só uma vez a conta chegou tão baixo quanto a real.

O comparecimento ficou perto do resto dessas cidades: 80 de cada 100 inscritos foram votar, contra 79.

Sorte ou padrão? Sorteie as escolas e refaça a conta

Aperte o botão. Cada ponto que cai é um sorteio.

Nenhum sorteio ainda.

Cada ponto mostra quantos votos de cada 100 foram em branco ou nulos quando trocamos ao acaso, dentro de cada cidade, quais escolas rurais são as indígenas. A linha rosa é o valor real. Presidente, 1º turno de 2026. Fonte: TSE e Censo Escolar 2025.

Na escola tikuna de São Paulo de Olivença, a criança aprende a ler em tikuna. No domingo da eleição, quem votou ali leu outra palavra, em outra língua. Estava escrita na tecla verde: CONFIRMA.

Como fizemos

  • Locais de votação: TSE, eleitorado por local de votação, 1º turno de 2026: 95.113 locais no Brasil, com os eleitores aptos de cada um. O TSE não traz o código da escola. Usamos o casamento por nome, município e coordenadas feito para a reportagem Para 8 de cada 10 eleitores, a urna fica numa escola: 69.852 locais acharam par no Censo Escolar 2025, 73 de cada 100. Por isso os números são piso: escola indígena que não achou par ficou fora. São 383 locais do TSE, que casam com 378 escolas do Censo: cinco escolas aparecem como dois locais. Lemos à mão os 45 pares de nome menos parecido; todos eram a mesma escola com outra grafia.
  • Escola indígena e língua: Censo Escolar 2025 (INEP), escola em funcionamento marcada como escola indígena. A língua é a que a escola declara: ensina só em língua indígena, só em português ou nas duas, e o código de até três línguas. O nome de cada código vem do Quadro de Língua Indígena do Caderno de Conceitos do Censo Escolar 2023 (INEP, baixado em 11/10/2026); o dicionário de 2025 não traz o quadro. Mantivemos o que a escola declarou, mesmo quando estranha: escolas da Paraíba declaram xerente, língua do Tocantins. Nas figuras, os nomes mais comuns estão na grafia usada em português (Tikúna, no Censo, virou Tikuna).
  • Biblioteca e professor: biblioteca ou sala de leitura e material de ensino indígena, da tabela de escolas; professor de língua indígena é a escola com ao menos um docente nessa disciplina, da tabela de docentes do Censo 2025.
  • Votos: TSE, votação por seção, presidente, 1º turno de 2026, somada por local. Branco e nulo sobre o total de votos; comparecimento é votos sobre eleitores aptos. A comparação com o vizinho usa, em cada cidade, as escolas rurais não indígenas onde se votou, com o peso dos votos de cada escola indígena: 285 escolas indígenas em 127 cidades, 133.507 votos. No sorteio, trocamos ao acaso, dentro de cada cidade, quais dessas escolas são as indígenas, 2.000 vezes. A figura mostra os 200 primeiros sorteios.
  • O que buscamos e não achamos: versão da urna de 2026 em língua indígena, no TSE. As páginas de notícias do TSE recusaram a leitura automática, e não citamos o que não lemos. O cadastro do TSE não diz a etnia nem a língua de quem vota em cada seção; nada aqui fala do eleitor, só do lugar.
  • Cálculo: eleicoes/calculos/a-urna-na-escola-indigena.py (resultado em .json).

Viu um erro? Discorda?

Aponte aqui. A redação confere na conta e nos dados oficiais e responde em público, nesta página: diz se acata ou não acata, e por quê. Erro acatado vira correção na própria matéria.

O que você quer fazer?

Diga onde está e o que está errado, ou do que você discorda. Até 1.500 caracteres. Não publicamos insulto, dado pessoal nem propaganda.

Erros e críticas dos leitores

Abrindo o balcão…