Municípios e leitura · Voto branco e nulo
Onde mais gente não sabe ler, menos eleitores deixam o voto para deputado em branco ou nulo
Em 2026, nas 557 cidades com mais adultos analfabetos, 6,1 de cada 100 eleitores deixaram o deputado federal em branco ou nulo. Nas 557 com menos analfabetos, foram 9,6. Para presidente, a diferença quase some.
Reportagem · Municípios e leituraEleições 2026 · 1º turno7 de outubro de 2026
Alto Alegre, em Roraima, tem a maior taxa de analfabetismo do Brasil. Pelo Censo de 2022, 37 de cada 100 moradores com 15 anos ou mais não conseguem ler e escrever um bilhete simples.
No domingo, 4 de outubro, 2,3 de cada 100 eleitores que foram votar em Alto Alegre deixaram o deputado federal em branco ou nulo.
Na cidade de São Paulo, 3 de cada 100 adultos não sabem ler. Lá, 10,5 de cada 100 eleitores deixaram o deputado em branco ou nulo.
A urna também é um texto. Para presidente, o eleitor digita 2 números. Para deputado federal, digita 4 e confere na tela o nome e o partido. Esta reportagem partiu de uma suspeita: onde se lê menos, mais gente erra ou desiste nessa tela. O dado dos 5.570 municípios diz o contrário.
Seu palpite: em qual grupo de cidades mais eleitores deixaram o deputado federal em branco ou nulo em 2026?
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Dez grupos de cidades
Separamos os 5.570 municípios em dez grupos de 557, do que tem menos adultos analfabetos ao que tem mais. A medida é simples: de cada 100 eleitores que foram votar, quantos deixaram o voto em branco ou nulo.
Nas 557 cidades com menos analfabetos, 9,6 de cada 100 eleitores deixaram o deputado federal em branco ou nulo. Nas 557 com mais analfabetos, foram 6,1.
Do primeiro ao sexto grupo, o número cai degrau a degrau. Depois, fica perto de 6.
Para presidente, quase nada muda: 4,9 de cada 100 no primeiro grupo e 5,3 no último.
Onde se lê menos, a tela de deputado fica menos em branco
Brancos e nulos em cada 100 eleitores que foram votar. Toque numa linha para ver os números do grupo.
Em 2022, o desenho era o mesmo: 12,1 de cada 100 no grupo com menos analfabetos e 7,2 no grupo com mais. Em 2018, foram 17,6 e 11,3, numa conta que ainda somava ao nulo os votos em candidatos com registro negado.
O voto nulo inclui o número digitado que não existe. Ele também é menor onde mais gente não lê: 2,4 de cada 100 nas cidades com mais analfabetos, contra 4,0 nas com menos.
Não é só cidade grande contra cidade pequena
O grupo com menos analfabetos reúne as capitais do Sul e do Sudeste, além de Brasília. Nele votaram 51 milhões dos 125 milhões de eleitores que foram às urnas.
Por isso, tiramos da conta todas as cidades com mais de 50 mil eleitores. Sobram 5.074 municípios. Entre eles, o desenho continua: 9,1 de cada 100 nos que têm menos analfabetos e 6,0 nos que têm mais.
Também comparamos cada cidade só com as do mesmo estado e de nível socioeconômico parecido. O sinal não muda. Cada 10 pontos a mais de analfabetismo vêm com 2,1 votos a menos em branco ou nulo para deputado, em cada 100 eleitores.
Quem ficou em casa
Para quem não sabe ler, votar não é obrigatório: a Constituição deixa o voto facultativo aos analfabetos. Se eles ficassem em casa, as urnas dessas cidades receberiam só quem lê. O branco e o nulo cairiam por isso.
Em 2026, não foi o que se viu. A abstenção foi parecida nos dois extremos.
Em 2018 e 2022, faltou um pouco mais de gente nas cidades com mais analfabetos: 22,5 e 23,0 de cada 100, contra 19,4 e 20,3. Mesmo assim, o branco e o nulo para deputado foram menores lá.
E a nota de leitura das crianças?
O Censo mede os adultos que votam. O Saeb mede a leitura das crianças do 5º ano na escola pública. Pela nota do Saeb, o desenho é mais fraco.
Nas 552 cidades com as notas de leitura mais baixas, 6,3 de cada 100 eleitores deixaram o deputado em branco ou nulo. Nas 552 com as notas mais altas, 7,6. O maior número, 9,6, fica no meio da fila.
Três eleições, menos voto em branco
No país inteiro, o branco e o nulo para deputado federal caíram em oito anos. Eram 16,1 de cada 100 eleitores em 2018. Foram 10,5 em 2022 e 8,6 em 2026. Parte da queda de 2018 para 2022 é mudança de conta: em 2018, o voto em candidato com registro negado entrava como nulo.
No Brasil, a tela de deputado fica cada vez menos em branco
Brancos e nulos em cada 100 eleitores que foram votar, 1º turno.
Procure a sua cidade
Quanto a sua cidade deixou em branco?
A pergunta da pauta era quem anula o voto onde se lê menos. A resposta medida é outra: onde se lê menos, menos eleitores deixam a tela de deputado em branco.
O dado não diz por quê. Ele mostra cidades, não pessoas. Não sabemos se quem deixou o voto em branco sabe ler ou não.
Como fizemos
- Votos de 2018 e 2022. Arquivo detalhe_votacao_munzona do TSE (cdn.tse.jus.br), 1º turno, por município: comparecimento, votos brancos e total de nulos, para presidente e deputado federal.
- Votos de 2026. Arquivo de cada município no sistema de resultados do TSE (resultados.tse.jus.br), com 100% das seções apuradas, lido em 07/10/2026. O arquivo consolidado de 2026 ainda não estava publicado.
- Medida. (brancos + nulos) ÷ eleitores que foram votar × 100. Votos em candidatos com registro anulado pela Justiça não entram como nulos. Votos do exterior ficam fora.
- Analfabetismo. IBGE, Censo 2022, tabela 9543: pessoas de 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever um bilhete simples. O mesmo número de 2022 serve para as três eleições.
- Grupos. Os 5.570 municípios em dez grupos de 557, pela taxa de analfabetismo. O número de cada grupo soma os votos de todas as suas cidades e divide pela soma de quem foi votar.
- Saeb. Inep, nota de Língua Portuguesa do 5º ano da rede pública (Saeb 2025; 2023 quando 2025 faltava), em 5.517 municípios, dez grupos de 551 ou 552.
- Contrafactuais. (1) Só cidades com até 50 mil eleitores: 5.074 municípios. (2) Regressão linear com o estado e o nível socioeconômico (INSE 2023 do Inep, rede pública) em 5.558 municípios: cada 10 pontos de analfabetismo vêm com −3,4 (2018), −2,7 (2022) e −2,1 (2026) votos em branco ou nulo para deputado, em cada 100. (3) Abstenção por grupo, para checar se quem não lê deixou de ir votar.
- 2018. Naquele ano, o TSE somava ao nulo os votos em candidatos com registro negado; o arquivo não permite separá-los. Em 46 municípios, o branco e nulo para deputado passou de 30 de cada 100. Por isso, as afirmações principais se apoiam em 2022 e 2026, quando esses votos ficam fora do nulo.
- Limites. A comparação é entre cidades, não entre pessoas. O analfabeto que nunca tirou título não aparece em nenhuma conta. A taxa do Censo é de 2022. Os números de 2026 podem mudar com retotalizações.
- Associação não é causa. O texto descreve onde se votou em branco e nulo. Não explica por que.
- Cálculo. eleicoes/calculos/voto-nulo-e-leitura.py (e a coleta de 2026 em voto-nulo-e-leitura_coleta.py), com o resultado em voto-nulo-e-leitura.json, no acervo do letramento.org.
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