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Estados e redes estaduais · Voto dividido

Em 315 cidades, presidente e governador saíram de lados opostos

São 6 de cada 100 cidades do país. Em 290 delas, Lula ficou em 1º para presidente, e o governador mais votado tinha o PL na aliança. Em 1 de cada 3 cidades, a pergunta nem cabe: o governador mais votado não era de nenhum dos dois lados.

ReportagemEstados e redes estaduais1º turno de 2026 · dados do TSE e do INEP

Na cidade de São Paulo, o mesmo eleitorado, no mesmo domingo, digitou dois números que não combinam. Para presidente, deu o 1º lugar a Lula: 46,6 de cada 100 votos válidos, contra 42,1 de Flávio Bolsonaro. Para governador, deu 52,8 de cada 100 a Tarcísio, que tinha o PL na aliança.

A capital paulista não está sozinha. Das 5.570 cidades do país, 315 fizeram o mesmo tipo de escolha: um lado para presidente, o outro para governador. É o voto dividido.

Antes de ver: chute

De cada 100 cidades, em quantas o 1º lugar para presidente e o 1º lugar para governador vieram de lados opostos?

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A resposta: 6 de cada 100 (315 cidades).

  • 61 de cada 100 (3.408 cidades): presidente e governador do mesmo lado.
  • 6 de cada 100 (315 cidades): lados opostos — o voto dividido.
  • 33 de cada 100 (1.845 cidades): o governador mais votado não tinha nem o PT nem o PL na aliança.

O voto dividido quase sempre andou numa só direção. Em 290 das 315 cidades, Lula venceu para presidente e um aliado do PL venceu para governador. O caminho inverso, Flávio em cima e um aliado do PT embaixo, aconteceu em 25.

Para saber o lado de cada candidato a governador, esta reportagem leu o texto da aliança que cada um registrou no TSE. Quem tinha o PT na aliança ficou no lado de Lula. Quem tinha o PL ficou no lado de Flávio. Nenhuma aliança tinha os dois partidos.

O mapa: onde o voto se separou

Em número de cidades, Tocantins lidera: 57 de 139 dividiram o voto. Lula ficou em 1º em 84 cidades do estado. Em 57 delas, a Professora Dorinha, que tinha o PL na aliança, ficou em 1º para governador. Em proporção, lidera o Amapá: 13 de 16 cidades.

Em oito estados, nenhuma cidade dividiu o voto. Em cinco deles (Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Mato Grosso e Pernambuco), o governador eleito não tinha o PT nem o PL na aliança. Ali, a pergunta da divisão quase não se aplica. Em Rondônia, Roraima e Sergipe, presidente e governador andaram juntos.

Em cada estado, quantas cidades dividiram o voto?

O número no quadrado diz quantas cidades, de cada 100, dividiram o voto. Toque num estado para ver as contas e as maiores cidades.

Cada quadrado é um estado, na posição aproximada do mapa. O Distrito Federal fica fora: não tem municípios. Fonte: TSE, 1º turno de 2026.

O nome de Lula na urna

No Rio Grande do Norte, o candidato do PT pôs o nome do presidente dentro do próprio nome de urna: Cadu de Lula. Lula ficou em 1º em 165 das 167 cidades do estado. Cadu de Lula ficou em 1º em 73.

O nome emprestado levou menos da metade das cidades do dono. Allyson, do União, ficou em 1º em 65 cidades. Álvaro Dias, do PL, em 29. As 27 cidades potiguares com voto dividido são de Álvaro: Lula para presidente, PL para governador.

A leitura das crianças e o voto dividido

Dentro de um mesmo estado, as cidades onde as crianças leem pior dividiram mais o voto. A comparação usa a nota de leitura do 5º ano na escola pública (Saeb) e só os 18 estados onde houve voto dividido.

Quanto melhor a leitura das crianças, menos voto dividido?

Cidades separadas em quatro grupos iguais pela nota de leitura do 5º ano, dentro de cada estado. Barra = cidades com voto dividido, de cada 100.

3.741 cidades com nota no Saeb, em 18 estados. Fontes: TSE (1º turno de 2026) e INEP (Saeb, Língua Portuguesa, 5º ano, rede pública).

Na metade de cada estado que lê pior, 9,7 de cada 100 cidades dividiram o voto. Na metade que lê melhor, 7,3. Se a leitura não tivesse relação nenhuma com isso, as duas metades ficariam perto de 8,5.

A diferença não é sorte. Embaralhamos 5.000 vezes, dentro de cada estado, quais cidades dividiram o voto. Uma distância desse tamanho entre as metades apareceu em 15 das 5.000 vezes.

O padrão se repete em 13 dos 18 estados. No Ceará, no Rio de Janeiro, no Amazonas, no Pará e no Paraná, a metade que lê melhor dividiu mais (no Pará e no Paraná, por uma diferença mínima).

Isso não quer dizer que ler pior faz o eleitor dividir o voto. As cidades que leem pior também deram, em média, mais votos a Lula: 49,2 de cada 100, contra 46,8 na metade que lê melhor. Como quase todo voto dividido é Lula para presidente com um aliado do PL para governador, é nessas cidades que a separação aparece mais.

O que o dado não diz

Uma cidade com voto dividido não prova que o mesmo eleitor votou em lados opostos. O voto é secreto. Pode ser que um grupo de eleitores tenha escolhido Lula e outro grupo, o governador aliado do PL. O dado mostra só o 1º lugar de cada cargo em cada cidade.

A régua do lado também tem limite. Ter o PT ou o PL na aliança não quer dizer que o candidato fez campanha para Lula ou para Flávio. Com uma régua mais estreita, que olha só o partido do próprio candidato (PT e federação, ou PL), o voto dividido cai para 72 cidades.

Como fizemos

  • Governador. Arquivo final do TSE votacao_candidato_munzona_2026 (cdn.tse.jus.br), 1º turno, só votos válidos, somados por município. O lado de cada candidato vem do texto da aliança registrada (DS_COMPOSICAO_COLIGACAO): com PT (Federação Brasil da Esperança) = lado de Lula; com PL = lado de Flávio; sem nenhum dos dois = nenhum lado.
  • Presidente. Totalização do TSE por município, lida depois da apuração (o arquivo final por município ainda não traz o cargo). Conferido depois com o arquivo final do TSE por seção (votacao_secao_2026_BR): o 1º lugar só muda em Formoso (GO), que não entra no voto dividido. Lula ficou em 1º em 2.663 cidades e Flávio, em 2.905; em 2 (Trabiju, SP, e Crixás do Tocantins, TO) os dois empataram em votos, e a cidade fica sem 1º lugar para presidente. Nenhum outro candidato venceu em cidade alguma.
  • Recorte. 5.570 municípios. O Distrito Federal fica fora, porque não tem municípios. Cada cidade pesa 1, do menor povoado à capital.
  • Leitura. Nota de Língua Portuguesa do Saeb no 5º ano, rede pública, por município (INEP, Ideb 2025; 2023 quando 2025 faltava). Só os 18 estados com algum voto dividido. As cidades foram separadas pela mediana e pelos quartis da nota dentro de cada estado, para não comparar um estado com outro. Metade de baixo: 1.874 cidades; metade de cima: 1.867. Têm nota 3.741 das 3.785 cidades desses estados (29 com a nota de 2023).
  • Teste de acaso. Dentro de cada estado, o rótulo “voto dividido” foi sorteado de novo entre as cidades, 5.000 vezes. Em 15 sorteios a metade de baixo superou a de cima por 2,4 pontos ou mais.
  • Contrafactual. Se a leitura não tivesse relação com o voto dividido, as duas metades teriam a taxa do conjunto: 8,5 de cada 100.
  • Associação não é causa. O texto descreve onde o voto se separou. Não explica por que o eleitor separou.
  • Números podem mudar com decisões judiciais e retotalizações depois de 05/10/2026.
  • Cálculo. eleicoes/calculos/voto-dividido.py e o resultado em voto-dividido.json, no acervo do letramento.org.

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