Municípios e leitura · O nome na urna
Quase toda Caridade votou em Toninho de Caridade, mas só 1 em cada 14 votos dele saiu de lá
Em Caridade do Piauí, que o elegeu prefeito em 2016 e em 2020, ele teve 94% dos votos para deputado estadual. Foram 3.629 dos 50.998 que o elegeram. Em 641 cidades do país, um só nome levou metade ou mais dos votos para o cargo.
Reportagem · Municípios e leituraEleições 2026 · 1º turno12 de outubro de 2026
Caridade do Piauí tem 5.025 eleitores. Votam em sete lugares: quatro escolas, uma creche, a Câmara de Vereadores e a Sala da Cidadania. Duas das escolas ficam nos povoados de Ingazeira e Cabaceira.
No domingo, 4 de outubro, quem digitou 55789 para deputado estadual viu o nome da própria cidade na tela da urna.
DEPUTADO ESTADUAL · 55789 · PSDTONINHO DE CARIDADE
Foram 3.629 votos para ele. A cidade deu 3.841 votos a candidatos a deputado estadual, sem contar voto só no partido, branco e nulo. De cada 100, 94 foram de Toninho de Caridade. O segundo mais votado ali, GD (MDB), teve 109.
Nenhuma outra cidade do país deu tanto a um só nome para o cargo.
Para ele, Caridade foi 1 voto em cada 14
Toninho de Caridade teve 50.998 votos no Piauí. Foi o 10º mais votado entre 138 nomes e se elegeu. Os 3.629 votos de Caridade são 7 de cada 100 desse total.
Ele teve voto em 194 das 224 cidades do estado. Em Simões, teve mais que em Caridade: 4.039. Em Teresina, 3.082, que na capital são menos de 1 de cada 100 votos do cargo.
A mesma pilha de votos, vista da cidade e vista do candidato
Escolha uma cidade. Depois, troque o lado de onde se olha.
O nome de urna é o mesmo desde 2016. Naquele ano, Antoniel de Sousa Silva, empresário, se elegeu prefeito de Caridade como Toninho de Caridade. Em 2020, se reelegeu. Era o único nome na tela para prefeito: 3.096 votos.
Em 2022, quando ele ainda era prefeito e não disputou, Caridade também deu a maior parte a um nome só para deputado estadual: Simone (MDB), com 66 de cada 100.
Em 641 cidades, um nome só teve metade dos votos
Caridade é o caso mais forte de uma coisa comum. Em 641 das 5.570 cidades, um só nome teve metade ou mais dos votos para deputado estadual. Em 2022, foram 605.
Para deputado federal, o número caiu: de 478 cidades em 2022 para 395 em 2026.
As 641 cidades somam 363 nomes. Destes, 268 se elegeram: um em cada quatro deputados estaduais eleitos no país, sem contar o Distrito Federal.
Cada ponto é uma cidade. Acima da linha, um nome levou metade ou mais
Toque num ponto para ver a cidade e o nome. Troque o ano e o cargo.
Caridade do Piauí está marcada com um círculo, no alto à esquerda.
Em 107 delas, o nome era o do prefeito eleito em 2020
Procuramos os 363 nomes pelo CPF no registro de candidaturas da eleição municipal de 2020. Disputaram aquela eleição 139. Foram 125 para prefeito, e 110 se elegeram.
Em 107 das 641 cidades, quem levou metade ou mais dos votos para deputado estadual em 2026 é quem a mesma cidade elegeu prefeito em 2020.
Os quatro recordes são assim. Caridade do Piauí, com Toninho de Caridade (PSD). São José do Sabugi, na Paraíba, com Segundo Domiciano (PL). Cacimbinhas, em Alagoas, com Hugo Wanderley (MDB). Ponto Novo, na Bahia, com Dr. Thiago Gilleno (Republicanos). De cada 100 votos da cidade, de 89 a 94 foram para eles. Os quatro foram eleitos prefeitos ali em 2020, e os quatro se elegeram deputados em 2026.
E nos quatro a cidade do recorde não foi onde o eleito teve mais votos. Segundo Domiciano teve mais em Patos. Hugo Wanderley, em Estrela de Alagoas. Thiago Gilleno, em Feira de Santana.
Em Ponto Novo, o nome de urna de 2020 era Thiago Gilleno. Em 2026, ganhou um "Dr.".
O dado mostra a coincidência, não o motivo. Em 534 das 641 cidades, o nome mais votado não era o do prefeito eleito ali em 2020.
No nome de urna, o "de" diz mais "de quem" que "de onde"
Contamos à mão os nomes de urna dos 363. Em 26 há um "de", "do" ou "da". Só um traz a cidade onde teve metade dos votos: Toninho de Caridade.
Em nove, o que vem depois do "de" é outra pessoa. Léo de Neco. Geska de Laurinho. Zé de Irmã Teca. Bete de Zé de Agdônio. Nenhum desses nomes está no nome civil do candidato. O dado não diz quem são Neco ou Laurinho. Diz que o nome deles foi para a tela da urna.
Quatro são sobrenome de registro, como Daniel do Lago. Cinco são ofício ou casa, como Regina da Saúde e Grego da Fundação. Em sete, o dado não diz o que é.
Os 26 nomes com "de", "do" ou "da", pelo que vem depois
Não é só coisa de cidade pequena
Em cidade pequena, poucos votos fazem uma fatia grande: em Caridade, 3.629 bastaram. Mas a parte das cidades com um nome só é parecida até 50 mil votos para o cargo. São 13 de cada 100 cidades com até 5 mil votos. São 13 de cada 100 entre 20 mil e 50 mil. A parte só cai nas cidades grandes: 4 de cada 100 acima de 50 mil votos.
E a fatia da cidade na conta do eleito é quase sempre pequena. Na cidade do meio da lista das 641, saíram dali 6 de cada 100 votos do vencedor.
As 641 cidades têm mais adultos que não sabem ler nem escrever: 17,5 de cada 100 na cidade do meio, contra 8,8 nas outras, pelo Censo de 2022. A diferença vem do mapa: 348 delas ficam no Nordeste. Comparadas às outras cidades do mesmo estado, a distância some. O analfabetismo fica 1 ponto acima. Na prova de leitura do 5º ano, as escolas leem quase igual: 2 pontos acima.
Na tela da urna de Caridade, a cidade estava no nome. Na conta do eleito, foi um voto em cada catorze. O resto veio de fora.
Como fizemos
- Votos: TSE, votação por candidato, município e zona, 1º turno de 2022 e de 2026 (votacao_candidato_munzona_2026 e
_2022), arquivos por estado, deputado estadual e federal. Somamos os votos nominais válidos (QT_VOTOS_NOMINAIS_VALIDOS) de todas as zonas de cada cidade. A fatia é o voto do mais votado sobre o total de votos nominais válidos do cargo na cidade: o voto só no partido (legenda), o branco e o nulo ficam fora. Sem o Distrito Federal, que não tem cidades, e sem o exterior. São 5.570 cidades em 2026 e 5.569 em 2022. - Quem foi prefeito: TSE, registro de candidaturas de 2016, 2020 e 2026 (consulta_cand_2020), casado pelo CPF. Conferimos a eleição de prefeito de 2020 em Caridade na votação por município de 2020: um só candidato, 3.096 votos. Em 2016, eram dois.
- Caridade: eleitores, seções e locais de votação do TSE (
eleitorado_local_votacao_2026): 5.025 eleitores em 19 seções. - Leitura: taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais, IBGE, Censo 2022 (SIDRA, tabela 9543); nota de Língua Portuguesa do 5º ano na rede pública, INEP, Saeb 2025 (2023 onde 2025 falta). "A cidade do meio" é a mediana. A comparação dentro do estado faz a diferença das medianas em cada estado com pelo menos cinco cidades em cada grupo e tira a média, pesada pelo número de cidades com um nome só: 0,9 ponto no analfabetismo e 1,8 ponto na nota, a favor delas.
- Os nomes com "de": buscamos " DE ", " DO ", " DA ", " DOS " e " DAS " nos nomes de urna dos 363 e lemos os 26 achados um a um, ao lado do nome civil. A lista inteira está no cálculo.
- O que não fizemos: não casamos 2024. O registro de candidaturas de 2024 sai sem CPF, e casar só pelo nome erra com homônimos. Não lemos prestação de contas nem emendas parlamentares, que diriam o que liga o nome à cidade.
- Limites: cidade pequena muda de fatia com poucos votos. Metade ou mais é um corte nosso. Ter sido prefeito não explica o voto; o texto descreve a coincidência medida.
- Cálculo:
eleicoes/calculos/toninho-de-caridade.py(resultado em.json) etoninho-de-caridade_pagina.py(dados da página).
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