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Congresso · Escolaridade declarada

Em 2022, 207 candidatos disseram ao TSE que só leem e escrevem. Em 2026, 55

É a menor escolaridade que a lei aceita: quem não sabe ler não pode ser candidato. Caiu de 77 para 29 a cada 10 mil candidatos. Quem marca essa resposta uma vez quase nunca a repete: dos 23 que a usaram em 2022 e voltaram em 2026, nenhum escreveu de novo “lê e escreve”.

Reportagem · Congresso e partidosEleições 2026 · 1º turno9 de outubro de 2026

Em 2018, um candidato a deputado federal por Minas Gerais escreveu no registro do TSE que lia e escrevia — nada além disso. Elegeu-se. Era Emidinho Madeira, então no PSB. Em 2022, uma candidata a deputada estadual por São Paulo, empregada doméstica, marcou a mesma resposta. Elegeu-se também: Ediane Maria, do PSOL. Foram os dois únicos eleitos com essa escolaridade nas duas eleições.

Em 2026, os dois se elegeram de novo. Nenhum dos dois marcou “lê e escreve”. Emidinho Madeira, agora no PL, declarou fundamental incompleto. Ediane Maria declarou ensino médio completo. Entre os candidatos de 2026, ninguém que declarou só ler e escrever se elegeu.

246 → 207 → 55candidatos a deputado, senador e governador que declararam “lê e escreve” (2018, 2022, 2026)
0,77 → 0,29de cada 100 candidatos, de 2022 para 2026
0 de 23repetiram a resposta em 2026, entre os que a deram em 2022 e voltaram

A caixa mais baixa do formulário

A Constituição diz que analfabeto não pode ser eleito. Por isso o TSE não tem a opção “analfabeto” para candidato. A escolaridade mais baixa possível é “lê e escreve”. É o próprio candidato quem informa a escolaridade no pedido de registro.

Em 2018, 246 candidatos marcaram essa caixa. Em 2022, 207. Em 2026, 55. A conta usa o mesmo recorte nos três anos: deputados federais, estaduais e distritais, senadores e governadores que chegaram à urna no 1º turno.

O total de candidatos também caiu: de 26.909 em 2022 para 19.087 em 2026, 29 de cada 100 a menos. Os que só leem e escrevem caíram mais: 73 de cada 100 a menos.

Que escolaridade os candidatos declaram?

De cada 100 candidatos a deputado, senador e governador. Escolha o ano.

Fonte: TSE, consulta_cand 2018, 2022 e 2026. Candidatos com resultado no 1º turno. A barra rosa é “lê e escreve”; o número ao lado é de cada 100, com uma casa a mais por ser pequeno.

A figura mostra o desenho do resto. De 2022 para 2026, “superior completo” passou de 54,73 para 58,86 de cada 100 candidatos. “Fundamental completo” caiu de 4,62 para 2,54. No papel, a lista de 2026 é a mais escolarizada das três.

Foi o arquivo que encolheu?

A pergunta vale ser feita antes de qualquer conclusão. O arquivo de candidatos de 2026 tem 20 mil registros, contra 28 mil nos anos anteriores. Fizemos três testes.

Primeiro: faltam candidatos no cadastro? Não. O arquivo de votos de 2026, que o TSE publica separado, traz 18.840 candidatos com voto nesses cargos. Todos estão no cadastro. A eleição de 2026 teve mesmo menos candidatos.

Segundo: a queda vem de haver menos candidatos a deputado estadual? Também não. Em 2026 caiu mais o número de candidatos a deputado estadual. Mas, se cada cargo mantivesse a proporção de 2022, seriam 147 candidatos “lê e escreve”, e não 55.

Se cada cargo mantivesse a proporção de 2022

Esperado com a proporção de 2022 147

Observado em 2026 55

Proporção de “lê e escreve” de 2022 em cada cargo, aplicada ao número de candidatos de cada cargo em 2026.

Terceiro: as mesmas pessoas mudaram de resposta? Aqui está o achado. Pelo CPF, 5.829 candidatos concorreram em 2022 e em 2026. Desses, 80 de cada 100 declararam a mesma escolaridade nas duas vezes. Entre os que tinham marcado “lê e escreve”, a conta é outra.

Faça seu palpite

Em 2022, 23 candidatos que declararam “lê e escreve” concorreram de novo em 2026. Quantos deles repetiram a resposta?

18

Dado: nenhum. Seu palpite: . Cada bolinha é um deles; a cor é o que declarou em 2026.

Dos 23, 9 declararam ensino médio completo em 2026 e 5, superior completo. O resto ficou no fundamental, no médio incompleto ou no superior incompleto. Ninguém repetiu “lê e escreve”.

A troca não é nova. De 2018 para 2022, 15 candidatos “lê e escreve” voltaram a concorrer; só 2 repetiram a resposta. A caixa mais baixa é uma porta de saída: quem passa por ela raramente fica.

O dado não diz por quê. A pessoa pode ter estudado entre uma eleição e outra. Pode ter preenchido diferente. Pode ter mudado o que entende por escolaridade. O registro só guarda a palavra escolhida.

Quem são os 55 de 2026

São 29 candidatos a deputado estadual, 25 a deputado federal e 1 ao Senado. Nenhum disputou governo. Minas Gerais tem 12; o Amazonas, 6. Os outros se espalham por 18 estados.

Estão em 21 partidos, da esquerda à direita; nenhum tem mais de 8. A idade do meio é 53 anos, contra 49 entre todos os candidatos. São 19 mulheres e 36 homens. Agricultor, aposentado, comerciante e empresário são as ocupações mais citadas depois de “outros”.

Somados, tiveram 87.147 votos. O candidato a deputado do meio da fila teve cerca de 260 votos; entre todos os candidatos a deputado, o do meio teve 880. O mais votado dos 55, candidato a deputado estadual no Rio Grande do Sul, teve 24.456 votos e ficou como suplente.

Quantos votos tiveram os 55 de 2026?

Cada barra é um candidato, do mais ao menos votado. Passe o dedo ou o mouse.

Toque numa barra.

Votos nominais válidos no 1º turno de 2026 (TSE, votacao_candidato_munzona). Linha tracejada: votos do candidato a deputado do meio da fila entre todos (880).

Em 2018 e 2022, a caixa mais baixa elegeu uma pessoa por eleição. Em 2026, nenhuma. Os dois que se elegeram antes continuam na política, agora com outra palavra no registro.

Como fizemos

  • Fonte. Arquivos consulta_cand do TSE: 2018 e 2022 (por estado) e 2026 (arquivo nacional gerado em 08/10/2026). Votos: votacao_candidato_munzona 2026, votos nominais válidos do 1º turno.
  • Quem conta. Deputado federal, estadual e distrital, senador e governador; 1º turno; uma linha por candidatura; só quem tem resultado no 1º turno (excluímos “#NULO”, em geral indeferidos e renúncias). São 26.494, 26.909 e 19.087 candidatos. Contando todos os registros, os “lê e escreve” seriam 284, 222 e 72.
  • Por que não “aptos”. O arquivo de 2026 não traz a situação da candidatura (apto/inapto) preenchida. Para comparar igual, usamos o resultado no 1º turno nos três anos.
  • Escolaridade. É declarada pelo candidato no registro. O dado mede o que foi escrito no formulário, não a escolaridade real.
  • Mesmas pessoas. Ligamos 2018, 2022 e 2026 pelo CPF do candidato. 5.829 pessoas concorreram em 2022 e 2026; 5.799 em 2018 e 2022.
  • Teste do cargo. Proporção de “lê e escreve” em 2022 por cargo, multiplicada pelo número de candidatos de cada cargo em 2026: 146,6 esperados, 55 observados.
  • Nomes. Citamos só quem se elegeu. Dos demais, informamos cargo, partido, estado, idade e votos, sem nome.
  • Limites. Não sabemos por que a resposta muda. Associação não é causa. Os números podem mudar com decisões judiciais e retotalizações depois de 08/10/2026.
  • Cálculo. eleicoes/calculos/os-que-so-leem-e-escrevem.py e o resultado em os-que-so-leem-e-escrevem.json, no acervo do letramento.org.

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