Estados · Os planos de governo
Nos planos de quem vai governar, a “leitura” de placa de carro aparece tanto quanto a de livro
Dos 33 candidatos a governador que já venceram ou disputam o 2º turno, 28 escrevem “alfabetização” no plano entregue ao TSE. Só 2 põem uma meta em número, como “95 de cada 100 crianças”. Nenhum diz em que ano.
Reportagem · Estados e redes estaduaisEleições 2026 · 1º turno6 de outubro de 2026
Abra o plano de governo de Arthur Henrique (PL), eleito em Roraima no domingo. São quase 11 mil palavras. A palavra “leitura” aparece uma vez. Está num trecho sobre segurança pública: “câmeras de leitura de placas de automóveis”.
Roraima não é exceção. Lemos os planos dos 33 candidatos que vão governar ou ainda disputam o cargo: os 21 eleitos no 1º turno e os 12 que seguem para o 2º turno, em 6 estados. Em 10 desses planos, “leitura” é de placa de carro. Em 9, é de livro, de escola ou de texto.
Seu palpite
Dos 33 planos de quem vai governar, quantos põem uma meta em número para a alfabetização, como “80 de cada 100 crianças”?
A frase de sempre
De todas as palavras ligadas a ler e escrever, a que está em mais planos é “alfabetização”: 28 dos 33. “Biblioteca” vem depois, em 24. Quase sempre vem na mesma fórmula: “alfabetização na idade certa”. A expressão, ou a irmã “no tempo certo”, está em 24 dos 33.
A fórmula diz o quê, mas não diz quanto. Só 2 planos põem um número abaixo de 100. Rafael Fonteles (PT), eleito no Piauí, promete “95% das crianças alfabetizadas até os 7 anos”. Omar Aziz (PSD), no 2º turno do Amazonas, toma como referência a média nacional do Indicador Criança Alfabetizada: 66 de cada 100 crianças em 2025.
Outros 6 prometem “todas as crianças”. Daniel Vilela (MDB), eleito em Goiás, escreve “100%”. Nenhum dos 33 diz em que ano a promessa estará cumprida.
Quatro planos não tocam no assunto. Um deles é o de Allyson (União), primeiro colocado no Rio Grande do Norte, com 36,94% dos votos válidos, e no 2º turno. Ele não escreve “alfabetização”. A única “leitura” do plano é “uma leitura responsável dos desafios do estado”.
Saúde está em quase todos os planos; alfabetização, em pouco mais da metade
Em quantos dos 200 planos de governo registrados no TSE aparece cada palavra (todos os candidatos a governador)
Mais um palpite
Nos 33 planos de quem vai governar, a palavra “leitura” aparece em mais planos ligada a quê?
Quem alfabetiza é a prefeitura
A criança aprende a ler até o 2º ano do ensino fundamental. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação põe o ensino fundamental como prioridade das prefeituras. Ao estado cabe, com prioridade, o ensino médio. Por isso os planos repetem “em regime de colaboração com os municípios”: o governo estadual apoia, a prefeitura ensina.
A escola que o governador comanda direto é a de ensino médio. Ali, o Saeb mede a leitura dos alunos no último ano. Em 2025, a rede estadual do Paraná teve a média mais alta: 293 pontos. A da Bahia teve a mais baixa: 254.
Nenhuma rede estadual chegou a 300 pontos. É a linha que o movimento Todos Pela Educação usa para dizer que o aluno aprendeu o esperado em português no fim da escola.
Estado por estado: a leitura da rede e o que diz cada plano
Barra: média em língua portuguesa no Saeb 2025, 3ª série do ensino médio, rede estadual. A linha tracejada marca 300. Toque num nome para ler a frase do plano.
- Nome põe número
- Nome promete “todas”
- Nome cita, sem meta
- Nome não fala
Onde se lê pior, a promessa é a mesma
Nos 9 estados de leitura mais baixa no ensino médio, há 12 candidatos na lista. Dois não falam em alfabetização. Um põe número: Omar Aziz, no Amazonas.
Nos 9 estados de leitura mais alta, há 10 candidatos. Um não fala no assunto. Um põe número: Rafael Fonteles, no Piauí. Quatro prometem todas as crianças.
São poucos casos. A tabela não mostra que plano melhor faz rede melhor, nem o contrário. Mostra que a fórmula é a mesma nas duas pontas: “alfabetização na idade certa”, sem quanto e sem quando.
Um plano de governo é uma promessa por escrito, entregue à Justiça Eleitoral. Ele diz o que o candidato quis pôr em palavras. Em 2026, para a leitura, a palavra mais usada foi a mesma em quase todos os estados. O número ficou de fora.
Como fizemos
- Fonte dos planos. Arquivos proposta_governo_2026 do TSE, um por estado (cdn.tse.jus.br, baixados em 06/10/2026 às 11h40). Há 201 candidaturas a governador no arquivo de candidatos do TSE; 200 têm plano. Seis arquivos de plano não correspondem a nenhuma dessas candidaturas e ficaram fora.
- Leitura do texto. Extraímos o texto dos PDFs. Seis planos eram imagem escaneada e passaram por reconhecimento de texto (OCR), que pode errar letras.
- Contagem. Um plano “cita” uma palavra se ela aparece ao menos uma vez, sem acento e em qualquer forma (alfabetização, alfabetizar, alfabetizadas). “Leitura” no sentido de ler só conta perto de palavras do mundo do texto e da escola (livro, escrita, biblioteca, aluno, criança). Nos 33 planos principais, conferimos cada “leitura” à mão: 10 planos falam de leitura de placas; 9, de leitura de livro, escola ou texto.
- Classificação. Para os 33 que venceram no 1º turno ou estão no 2º turno, lemos as frases com “alfabetização” e pusemos cada plano em um grupo: põe número abaixo de 100; promete todas as crianças (ou 100%); cita sem meta; não fala. Planos muito longos podem esconder um número que não achamos (o de Omar Aziz tem cerca de 456 mil palavras, com anexos).
- Leitura das redes. Média em língua portuguesa do Saeb 2025, 3ª série do ensino médio, rede estadual, da divulgação do Ideb 2025 (INEP). A linha de 300 pontos é a referência de aprendizado adequado usada pelo Todos Pela Educação, não uma meta oficial.
- Associação não é causa. O texto descreve o que os planos dizem e como a rede lê hoje. A nota de 2025 mede governos passados, não estes planos.
- Cálculo. eleicoes/calculos/o-que-os-planos-prometem-para-a-leitura.py e o resultado em o-que-os-planos-prometem-para-a-leitura.json, no acervo do letramento.org.
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