Congresso e partidos · Guilherme Derrite, senador eleito por São Paulo
“Ultraviolento” saiu do nome da lei relatada por Derrite e ficou dentro dela 41 vezes
Guilherme Derrite (PP), o senador mais votado de São Paulo em 2026, relatou na Câmara a lei contra o crime organizado. A palavra entrou no nome da lei no quarto parecer e saiu no quinto. Na tela da urna, a patente também saiu do nome: Tenente em 2018, Capitão em 2022, Guilherme em 2026.
Reportagem · Congresso e partidosTSE, Câmara dos Deputados, Planalto, SSP-SP, Diário Oficial de SP11 de outubro de 2026
Em 12 de novembro de 2025, a quarta versão do parecer de Guilherme Derrite entrou no sistema da Câmara com um nome novo para a lei: “Marco Legal do Combate ao Crime Organizado Ultraviolento no Brasil”. Nas três versões anteriores, a palavra “ultraviolento” não aparecia nenhuma vez. Nesta, aparecia 48 vezes.
Seis dias depois, a quinta versão tirou a palavra do nome. Do texto, não.
Derrite era deputado federal e relator do projeto. Em 4 de outubro de 2026, foi eleito senador por São Paulo com 13.273.880 votos, o mais votado entre os 12 candidatos. Cada eleitor tinha dois votos para senador. De cada 100 votos válidos, 30,6 foram dele.
A palavra chega de uma vez e fica
O projeto, o PL 5.582/2025, veio do governo federal. Como relator, Derrite escreveu seis versões do parecer em 11 dias, de 7 a 18 de novembro de 2025. A Câmara aprovou a sexta, por 370 votos a 110.
Quantas vezes a palavra “ultraviolento” aparece em cada versão do texto
Aperte “Próxima”. Veja a palavra entrar no nome da lei e depois sair dele.
0vezes no texto
Cada quadrado rosa é uma vez em que a palavra aparece, no singular, no plural, no masculino ou no feminino. As seis primeiras colunas são os pareceres de Derrite na Câmara; a última é a lei publicada no Planalto.
Na quinta e na sexta versões, a palavra aparece 39 vezes. O nome passou a ser “Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil”.
O Senado mudou o texto. Em fevereiro de 2026, num novo parecer, Derrite recomendou rejeitar o texto do Senado, salvo alguns trechos. A lei foi sancionada em 24 de março de 2026, a Lei 15.358.
O nome da lei não tem a palavra. O artigo 1º tem: a lei existe para punir “organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares ou milícias privadas”. No texto inteiro, a palavra aparece 41 vezes.
Na tela da urna, a patente saiu do nome
Em três eleições, quem digitou o número dele leu três nomes diferentes. O nome de urna é escrito pela própria candidatura no registro do TSE. O campo de ocupação também.
Que nome apareceu na tela da urna em cada eleição
Toque num nome. Depois toque na tela do ano em que ele apareceu.
A tela mostra o número, o nome de urna e o partido registrados no TSE, como o eleitor os viu no 1º turno.
Em 2018, pelo PP, ele foi Tenente Derrite. No campo de ocupação, escreveu “policial militar”. Teve 119.034 votos para deputado federal, o 30º de São Paulo.
Em 2022, pelo PL, foi Capitão Derrite. Na ocupação, “deputado”. Teve 239.772 votos para o mesmo cargo: o dobro. Ficou em 11º no estado.
Em 2026, de volta ao PP, foi só Guilherme Derrite, candidato a senador. A ocupação seguiu “deputado”. Como o cargo e a conta mudaram, 2022 e 2026 não se comparam como subida.
O nome ficou em 1º em 4 de cada 5 cidades
Ele teve mais votos que qualquer outro candidato ao Senado em 533 das 645 cidades. Em uma delas, empatado. O segundo mais votado do estado, André do Prado (PL), teve 12.703.089 votos.
Onde Derrite teve mais votos para senador, de cada 100 votos válidos
Veja as cidades acenderem, da menor fatia para a maior. Troque para a capital e veja os distritos. Toque num lugar para ler os números.
Quanto mais escuro, maior a fatia dos votos válidos para senador que foi dele. Fonte: TSE, 1º turno de 2026.
No interior e no litoral, ele teve 34,2 de cada 100 votos válidos. Na capital, 25,5. Quase 6 de cada 10 votos dele vieram do interior e do litoral.
A maior fatia foi a de Saltinho, perto de Piracicaba: 42,8 de cada 100. A menor, a de Sandovalina, na região de Presidente Prudente: 19,8.
Na capital, a distância cabe em poucos quilômetros. Na Água Rasa, na zona leste, ele teve 31,9 de cada 100. Na Bela Vista, no centro, 18,1.
Duas fichas, dois autores
A ficha de Derrite no site da Secretaria da Segurança Pública diz que ele “conseguiu a aprovação do Projeto de Lei 6579/2013, de sua autoria, que acaba com as saídas temporárias de presos”.
Nos dados abertos da Câmara, o autor do PL 6579/2013 é o Senado Federal. Derrite aparece como relator. Foi ele quem relatou, em 2022 e em 2024, o texto que virou a Lei 14.843/2024, a que restringe a saída temporária.
Como secretário, ele assinou outros textos. No Diário Oficial do Estado, de abril de 2024 a dezembro de 2025, há 79 resoluções da Secretaria com a assinatura dele. A maioria trata de imóveis, grupos de trabalho e bonificação. Nenhuma trata de câmeras corporais, das operações Escudo e Verão ou de uso da força.
A frase e a conta, lado a lado
Em 12 de novembro de 2025, no mesmo dia do quarto parecer, Derrite discursou numa sessão solene do Congresso. Contou o que respondeu, quando era secretário, a uma jornalista. Segundo ele, ela disse que os policiais das operações Escudo e Verão tinham sido acusados de matar. A resposta:
“Eles não mataram. Os policiais são heróis.”Discurso registrado pela Câmara dos Deputados, 12/11/2025
A Secretaria conta, a cada trimestre, as “pessoas mortas em confronto com a Polícia Militar em serviço”. Foram 256 em 2022, ano em que o secretário era outro. Em 2025, foram 700, quase o triplo.
Na mesma Secretaria, as vítimas de homicídio doloso caíram de 3.044 para 2.527 no mesmo período.
Duas contas da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, por ano
Em roxo, os anos em que Derrite foi secretário durante quase todo o ano.
Os nomes das linhas são os da Secretaria. Estado inteiro. Fonte: SSP-SP, dados mensais e trimestrais.
A Câmara registra que ele se afastou do mandato para ser secretário em 1º de janeiro de 2023. O Diário Oficial registra a saída final da Secretaria em 2 de dezembro de 2025. A conta não diz o que fez os números mudarem.
Na urna, a patente saiu do nome, e o nome venceu. Na lei, a palavra saiu do nome e ficou no texto. O registro guarda as palavras; os motivos, não.
Como fizemos
- A palavra. Contamos “ultraviolent” (sem distinguir maiúsculas, o que pega ultraviolento, ultraviolenta e os plurais) no inteiro teor de cada parecer de Derrite ao PL 5.582/2025 na Câmara: 1º, 2º, 3º, 4º, 5º e 6º; e no texto da Lei 15.358/2026 no Planalto, que não traz trecho riscado. O parecer de fevereiro de 2026 sobre o texto do Senado (codteor 3087205) não entra na figura: comenta o texto de outra Casa. O substitutivo do Senado não foi aberto, então não dizemos quem pôs a palavra no artigo 1º. O registro mostra o texto, não a intenção de quem o escreveu.
- Nome, ocupação e partido. Arquivo de candidaturas do TSE (consulta_cand de 2018, 2022 e 2026), parte de São Paulo. A ocupação é declarada pela candidatura; ninguém a confere.
- Votos. Votação por candidato, município e zona do TSE (2026, 2022 e 2018), 1º turno, só votos marcados como “Válido”. Em 2022, uma candidatura teve mais votos que ele, mas com destino “Anulado”; nos válidos, ele é o 11º. Em 2026 havia duas vagas e dois votos por eleitor: “30,6 de cada 100” é de cada 100 votos, não de cada 100 eleitores. Os arquivos de 2026 são de 3 a 10 de outubro e podem ser reprocessados pelo TSE. Interior e litoral, Grande São Paulo e capital seguem a divisão por município da apuração; os distritos da capital vêm da votação por seção de 2026, com cada local de votação posto no seu distrito (23 locais, com 23.172 votos dele e de outros, ficaram sem distrito e fora do mapa da capital).
- Câmara e Secretaria. Autoria e relatoria nos dados abertos da Câmara (PL 6579/2013, PL 583/2011, PL 5.582/2025); a ficha da SSP em listaSec.json; a relação entre o PL 583/2011 e o PL 6579/2013 não foi verificada em documento. O discurso de 12/11/2025 está nos discursos registrados pela Câmara. As 79 resoluções vêm da busca do Diário Oficial de SP, que só cobre a partir de maio de 2023; o decreto de nomeação de 1º/01/2023 não foi encontrado.
- Números da Secretaria. Vítimas de homicídio doloso: dados mensais, somados por ano. Mortes em confronto com a PM em serviço: dados trimestrais, somados por ano; são uma linha à parte, fora da conta de homicídio doloso. Os números estão ao lado da frase; não medem o efeito de ninguém.
- Cálculo.
eleicoes/calculos/guilherme-derrite.py(resultado emguilherme-derrite.json), que refaz cada número a partir dos arquivos baixados em 11/10/2026.
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