Congresso e partidos · Assembleias Legislativas
A urna escolhe o diploma: nas Assembleias, os eleitos são mais diplomados que a fila de candidatos
80% dos 1.059 deputados estaduais e distritais eleitos em 2026 declararam curso superior; entre os candidatos, 57%. O Amapá elegeu 24 diplomados para 24 cadeiras; Rondônia, 15. O Rio tem a 2ª população mais diplomada e a 2ª Assembleia menos diplomada.
Reportagem · Congresso e partidosEleições 2026 · 1º turno7 de outubro de 2026
Os 24 deputados eleitos no domingo, 4 de outubro, para a Assembleia Legislativa do Amapá marcaram a mesma linha no registro do TSE: curso superior completo. Todos os 24. Em Rondônia, que também tem 24 cadeiras, 15 marcaram essa linha.
São as duas pontas de um retrato que vale para o país inteiro. Somadas, as 27 Assembleias têm 1.059 cadeiras: 1.035 de deputados estaduais e 24 de deputados distritais, em Brasília. É ali que se escrevem as leis de cada estado. Antes de ver quem chegou, faça o seu palpite.
De cada 100 deputados estaduais eleitos em 2026, quantos declararam diploma de curso superior?
Arraste a bolinha e toque em “Ver a resposta”.
A resposta é 80. São 848 diplomados em 1.059 cadeiras. Em 2018, eram 72 de cada 100. Em 2022, 78.
O diploma ganha espaço no caminho entre a lista e a urna. Entre os 11.195 candidatos que chegaram à apuração, 57 de cada 100 tinham curso superior completo. Entre os eleitos, 80. Entre os brasileiros de 25 anos ou mais, 21, segundo o IBGE.
Esse degrau aparece nas 27 Assembleias, sem exceção. Em todas, a bancada eleita é mais diplomada do que a lista de quem pediu voto. O maior salto foi em Roraima: 48 de cada 100 candidatos tinham diploma; entre os eleitos, 21 de 24. O menor foi em Rondônia: 58 de cada 100 candidatos, 15 dos 24 eleitos.
O estado não explica a sua Assembleia
A suposição óbvia seria esta: estado mais estudado elege Assembleia mais estudada. O dado quase não confirma.
O Rio de Janeiro tem a segunda população mais diplomada do país: 27 de cada 100 adultos, atrás só do Distrito Federal. A Assembleia do Rio é a segunda menos diplomada: 46 dos 70 deputados, ou 66 de cada 100.
O Piauí faz o caminho oposto. Lá, 16 de cada 100 adultos têm diploma. Na Assembleia, 28 dos 30 deputados.
A maior distância entre o povo e a bancada está no Maranhão. São 13 diplomados em cada 100 adultos e 81 em cada 100 deputados: seis vezes mais. A menor está no Distrito Federal: 41 contra 83, o dobro.
Estado mais estudado elege Assembleia mais estudada?
Cada ponto é um estado. Se o estudo do povo puxasse o da Assembleia, os pontos subiriam em fila da esquerda para a direita. Toque num ponto para ver os números.
↑ Deputados eleitos com diploma, de cada 100
Medimos a ligação entre as duas colunas nos 27 estados. Numa régua em que 0 é nenhuma ligação e 1 é ligação perfeita, o resultado foi 0,25: fraca. Saber quanto o povo de um estado estudou ajuda pouco a adivinhar o diploma da sua Assembleia. O que vale para todos é o piso: em nenhum estado a bancada tem menos que o dobro de diplomados do povo que representa.
O que a Constituição pede
Para ser candidato, a Constituição pede pouco da escola. O artigo 14 diz que o analfabeto não pode se eleger, e só. Ler e escrever basta.
Em 2026, 29 candidatos às Assembleias declararam exatamente isso como grau de instrução: “lê e escreve”. Nenhum foi eleito.
Na outra ponta da régua, 18 eleitos declararam não ter terminado o ensino médio. São menos de 2 de cada 100 cadeiras. Em 2018, eram 31.
Estado por estado
O gráfico abaixo põe as 27 Assembleias lado a lado. Escolha o que quer ver.
Quantos deputados de cada Assembleia têm diploma?
Mais mulheres, menos troca
As mulheres ocupam 218 cadeiras, 21 de cada 100. Em 2018 eram 163. Em 2022, 191.
Aqui o caminho da lista à urna vai no sentido contrário ao do diploma. Entre os candidatos, 35 de cada 100 eram mulheres. Entre os eleitos, 21.
O Acre não elegeu nenhuma deputada para as suas 24 cadeiras. O Ceará tem a maior fatia: 14 mulheres em 46 cadeiras, ou 30 de cada 100.
Dos 1.059 eleitos, 441 não estavam entre os eleitos de 2022 para a mesma Assembleia: 42 de cada 100. Em 2022, a troca tinha sido de 46 de cada 100.
O Maranhão foi o estado que mais trocou: 27 dos 42 deputados são novos na lista. Distrito Federal, Mato Grosso e Roraima foram os que menos trocaram: 7 novos em 24 cadeiras, cada um.
Os novatos são mais jovens. A idade do meio entre eles é de 44 anos; entre os que voltaram, 51. No diploma, os dois grupos quase empatam: 79 de cada 100 novatos o têm, contra 81 de cada 100 dos que voltaram.
O deputado estadual mais jovem eleito tem 21 anos, no Maranhão. O mais velho tem 91, em São Paulo.
Um aviso sobre a ordem dos estados
Nas Assembleias pequenas, um deputado mexe muito na conta. Com 24 cadeiras, cada eleito vale 4 pontos em cada 100. O Acre tinha 23 diplomados em 24 em 2022; agora tem 17. Por isso a ordem entre os estados muda de uma eleição para outra. O que se repete é o quadro geral: a lista de candidatos é mais diplomada que o povo, e a Assembleia eleita é mais diplomada que a lista.
Como fizemos
- Fonte dos eleitos. Arquivos consulta_cand do TSE de 2018, 2022 e 2026 (cdn.tse.jus.br; o de 2026 baixado em 05/10/2026). Recorte: cargos de deputado estadual e deputado distrital, situação “eleito por QP” ou “eleito por média”, uma linha por candidatura. Os três anos fecham em 1.059 eleitos, o número de cadeiras das 27 Assembleias.
- Distrito Federal. A Câmara Legislativa do DF, com 24 deputados distritais, entra no texto e nos gráficos como a 27ª Assembleia.
- Conferência. Em 23 estados, a lista de eleitos do TSE é idêntica, número a número, à do painel de resultados que alimenta a seção. Em Bahia, Minas Gerais, Paraná e São Paulo o painel ainda não marcava a situação final; ali usamos o eleito oficial do consulta_cand, e todos os 288 números aparecem entre os candidatos do painel.
- Candidatos. São os 11.195 que chegaram à apuração com situação final “eleito”, “suplente” ou “não eleito”. Ficam de fora candidaturas indeferidas, renunciadas ou canceladas.
- Escolaridade, gênero e idade são declarados pelo próprio candidato no registro; o TSE não confere diploma. Idade calculada em 4 de outubro de 2026. “Idade do meio” é a mediana: metade dos eleitos tem mais, metade tem menos.
- População. IBGE, PNAD Contínua 2025, tabela 7269: pessoas de 25 anos ou mais com superior completo, por estado (Brasil: 21,4 de cada 100). Os dois grupos não são iguais: todo deputado tem mais de 21 anos e a idade do meio é 48. A PNAD é uma pesquisa por amostra; nos estados menores, a margem de erro é maior.
- Ligação entre povo e Assembleia. Correlação de Pearson entre as duas porcentagens nos 27 estados: 0,25 (0,28 sem o Distrito Federal; 0,32 pela ordem dos estados, Spearman). Com 27 pontos, é um número que varia com um ou dois estados. Associação não é causa: o texto descreve quem foi eleito, não por que foi.
- Renovação. Eleito em 2026 cujo CPF não está entre os eleitos de 2022 para a Assembleia do mesmo estado (e 2022 contra 2018). Quem foi deputado antes de 2022, ou assumiu como suplente, conta como novo.
- Os números podem mudar. Recontagens e decisões judiciais sobre candidaturas alteram listas depois da eleição.
- Cálculo. Script eleicoes/calculos/assembleias-quem-chega.py e resultado em assembleias-quem-chega.json, no acervo do letramento.org.
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