letramentoEleiçõesReportagem
← Eleições

Escolas e seções · O nome na fachada

Lula foi mais votado nas escolas Médici que nas Paulo Freire. Posta cada uma ao lado da sua cidade, a conta vira

Nos 57 locais de votação com o nome do general, Lula teve 49,1% dos votos válidos para presidente; nos 200 com o nome do educador, 44,6%. Comparado cada local com o resto da própria cidade, as escolas Paulo Freire deram a Lula 1,3 ponto acima do esperado e as Médici, 1,4 abaixo.

Reportagem · Escolas e seçõesEleições 2026 · 1º turno17 de outubro de 2026

Em Salvador, quem vota no CETI Paulo Freire entra num prédio com o nome do educador na fachada. No 1º turno, Lula teve ali 5.505 dos 7.948 votos válidos para presidente: 69 de cada 100. No resto de Salvador, teve 65.

Em Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, o Centro Educacional Municipal Presidente Médici leva o nome do general que governou o país de 1969 a 1974. Flávio Bolsonaro teve ali 3.254 dos 4.728 votos válidos: 69 de cada 100. Na cidade inteira, teve 71.

Cada escola votou quase como a sua cidade. A de nome Médici deu a Lula um pouco mais do que a vizinhança.

O nome da escola é um texto que alguém escreveu

Alguém escolhe o nome de uma escola, escreve numa lei municipal ou estadual e pinta no muro. Em 2012, a Lei 12.612 declarou Paulo Freire patrono da educação brasileira. O Censo Escolar de 2024 conta 410 escolas em atividade com o nome dele. Com o nome de Médici, 86. São quase cinco Paulo Freire para cada Médici.

Muitas dessas escolas viram local de votação. O TSE lista 200 locais com “Paulo Freire” no nome, em 187 cidades, e 57 com o nome do presidente Médici, em 56 cidades.

O 57 tem uma conferência por trás. Quem busca só a palavra “Médici” na lista acha 64 locais. Treze são faculdades e prédios de medicina, que têm “médici” dentro de “medicina”. Dois homenageiam outras pessoas, uma Scila e uma Arlinda. Três trocaram de nome, como se verá no fim. E outros 11 escrevem o general com “e”: Médice.

Contado por cima, Lula foi melhor nas escolas Médici

Nos 57 locais Médici, Lula teve 49 de cada 100 votos válidos. Nos 200 locais Paulo Freire, 45. No país, 45.

A conta por cima engana porque as escolas Médici ficam em outro mapa. Das 57, 35 estão no Nordeste, onde Lula venceu com folga. Das 200 Paulo Freire, 79.

A comparação justa põe cada escola ao lado da própria cidade. Se cada local Paulo Freire tivesse votado como o resto do seu município, Lula teria 43,3 de cada 100. Teve 44,6. Nas Médici, teria 50,5. Teve 49,1.

Ao lado da cidade, a ordem se inverte

Troque a régua. Veja o voto em Lula nas duas escolas.

Votos válidos para presidente no 1º turno de 2026, nos locais de votação com o nome de cada patrono. O traço preto marca o voto em Lula no resto das mesmas cidades.

A distância é pequena, e não é sorte

A diferença entre as duas escolas, medida contra a própria cidade, é de 2,7 votos em cada 100. Pouco. Num local de mil votos, são 27.

Pode ser acaso? Um jeito de saber é sortear. Deixe os 257 locais onde estão e embaralhe os nomes: qualquer escola pode virar Paulo Freire ou Médici. Fizemos isso 10 mil vezes. Só 228 sorteios deram distância igual ou maior que a real.

Cada ponto é uma escola. A distância some quando os nomes são sorteados?

Aperte “Sortear os nomes”. Compare a distância sorteada com a real.

Distância realvotos em 100
Distância neste sorteio—votos em 100
Sorteios com distância igual ou maior0 de 0

Toque num ponto para ver a escola.

Cada ponto mostra quanto Lula teve no local acima ou abaixo do resto da mesma cidade. O traço grosso é a média de cada grupo, pesada pelos votos.

Mas a mesma régua separa outros nomes. As escolas Anísio Teixeira, de outro educador, deram a Lula 2 votos em 100 abaixo das suas cidades. Entre Paulo Freire e Anísio Teixeira, a distância é de 3,3. É maior que entre Paulo Freire e Médici.

Onze patronos, nenhum longe da sua cidade

Medimos assim 11 patronos frequentes na lista: presidentes, educadores, escritores e um herói. Nenhum grupo se afasta da própria cidade mais que 2 votos em 100.

O voto em Lula nas escolas de cada patrono, comparado à cidade

Toque num nome para ver quantas escolas e quantos votos.

−30+3

A faixa clara vai de 2 abaixo a 2 acima da cidade.

Diferença, em votos de cada 100, entre o que Lula teve nas escolas e o que teria se cada uma votasse como o resto da sua cidade.

Seis escolas guardam o nome antigo

Na lista do TSE, seis locais de votação ainda carregam o general entre parênteses. Em Cariacica (ES), o “CMEI Hilda Scarpino (antigo Presidente Médici)”. Em Paço do Lumiar (MA), a “U.E.B. Dra. Fátima Oliveira (antigo Garrastazu Médice)”. Em Nova Iguaçu (RJ), a “Escola Municipal Douglas Brasil (antigo Liceu Presidente Médici)”. Há mais uma em Nova Iguaçu e duas na Bahia, em Itabuna e Ipiaú.

A cidade trocou o nome. O cartório eleitoral guardou o velho para o eleitor achar a porta.

O caminho inverso também aparece uma vez. Em São Lourenço da Mata (PE), o “Educandário Paulo Freire” avisa que foi a “antiga Escola Assembleia de Deus”.

O nome na fachada conta quem a cidade quis lembrar quando a escola nasceu. O voto conta o bairro que mora em volta dela hoje.

Como fizemos

  • Os votos: TSE, votação por seção 2026 (votacao_secao_2026_BR), presidente, 1º turno de 4/10/2026, somada por local de votação (zona + número do local). Votos válidos = sem branco e sem nulo. No país: 94.958 locais, Lula 45,2% e Flávio Bolsonaro 47,0% dos válidos.
  • Os nomes: buscamos no nome do local, sem acento, as palavras inteiras “Paulo Freire”; “Médici” ou “Médice” junto de “Presidente”, “Emílio” ou “Garrastazu”; e os outros nove patronos. Conferimos a lista Médici à mão: dos 64 locais com “medici” no nome, saíram 13 de medicina, duas homenagens a outras pessoas e três escolas “antigo Médici”; entraram 11 grafados “Médice”. Ficaram 57. As escolas rebatizadas são seis nomes (uma delas listada em duas zonas) e não entram na conta. De Castelo Branco tiramos “Camilo Castelo Branco”, o escritor português.
  • Escola ou só local? Local de votação não é escola. Casamos pelo Censo Escolar 2024 (INEP, microdados, 181.065 escolas em atividade): 189 dos 200 locais Paulo Freire e 46 dos 57 locais Médici estão em cidades que têm escola em atividade com o mesmo patrono. O casamento é por cidade e nome, não por endereço.
  • A comparação justa: para cada local, calculamos o voto em Lula no resto da mesma cidade (a cidade sem aquele local) e somamos o que Lula “teria” se o local votasse igual. Paulo Freire: 130.816 votos de Lula em 293.480 válidos, contra 126.968 esperados (+1,3 em 100). Médici: 29.400 em 59.893, contra 30.241 esperados (−1,4). Em 120 dos 200 locais Paulo Freire e em 28 dos 57 Médici, Lula ficou acima da cidade.
  • O sorteio: embaralhamos 10 mil vezes os rótulos Paulo Freire e Médici entre os 257 locais, mantendo 200 e 57. Em 228 sorteios (2,3%), a distância foi igual ou maior que a real, de 2,7. Na figura, o sorteio é refeito no seu navegador.
  • O patrono: Lei 12.612, de 13 de abril de 2012 (Planalto, lida em 17/10/2026). Não buscamos as leis que deram nome a cada escola, nem o ano em que cada uma foi fundada ou rebatizada.
  • Limites: o voto é de quem mora perto do local, não dos alunos, e muitos locais juntam eleitores de vários bairros. O nome do patrono acompanha a época e o bairro em que a escola foi aberta; o dado não separa uma coisa da outra. Associação não é causa: o nome não muda voto, e o dado não diz por que cada local votou como votou. O pauteiro partiu de 64 locais Médici, com Lula a 44,4%; a lista conferida tem 57, com Lula a 49,1%. Cálculo em eleicoes/calculos/a-escola-paulo-freire-e-a-escola-medici.py.

Viu um erro? Discorda?

Aponte aqui. A redação confere na conta e nos dados oficiais e responde em público, nesta página: diz se acata ou não acata, e por quê. Erro acatado vira correção na própria matéria.

O que você quer fazer?

Diga onde está e o que está errado, ou do que você discorda. Até 1.500 caracteres. Não publicamos insulto, dado pessoal nem propaganda.

Erros e críticas dos leitores

Abrindo o balcão…