Municípios e leitura · Abstenção
Metade dos eleitores que não sabem ler faltou à urna
No 1º turno de 2022, faltaram 52 de cada 100 eleitores registrados como analfabetos. Entre quem tem diploma de faculdade, faltaram 12. A diferença aparece em todos os 27 estados, mas some quando se olha a média das cidades.
Reportagem · Municípios e leituraEleições 2018, 2022 e 2026 · 1º turno7 de outubro de 2026
Em 2 de outubro de 2022, 6,3 milhões de brasileiros tinham título de eleitor com uma anotação: “não sabe ler nem escrever”. Naquele domingo, 3,3 milhões deles não apareceram na seção.
A Constituição separa o eleitor pela leitura. Para quem sabe ler e tem de 18 a 69 anos, votar é obrigatório. Para quem não sabe, votar é uma escolha. É o que diz o artigo 14.
A pauta desta reportagem perguntava “onde” se falta mais à urna: em que cidades. O TSE tem um dado melhor. Ele conta quem faltou, separado pela escolaridade que o eleitor declarou no cadastro. É o retrato do próprio eleitor, não da cidade.
Seu palpite: de cada 100 eleitores registrados como analfabetos, quantos faltaram ao 1º turno de 2022?
Arraste e depois toque em “Ver o dado”.
Foram 52 de cada 100. Na média do Brasil, faltaram 21. Entre quem tem diploma de faculdade, 12.
Os analfabetos são só 4 de cada 100 eleitores. Mas foram 10 de cada 100 faltosos.
A escada da escola
Quanto mais escola no cadastro, menos falta. Do analfabeto ao diplomado, a abstenção cai de 52 para 12 de cada 100.
Mas há uma pegadinha: a idade. Depois dos 70 anos, o voto também deixa de ser obrigatório. E os analfabetos são mais velhos. Entre eles, 38 de cada 100 têm 70 anos ou mais. Entre os diplomados, 8.
Então tiramos os mais velhos e os mais novos da conta. Só eleitores de 25 a 59 anos: faltaram 31 de cada 100 analfabetos e 11 de cada 100 diplomados. É quase o triplo.
Quem falta mais à urna?
Eleitores que faltaram ao 1º turno de 2022, em cada 100, pela escolaridade do cadastro. Troque a idade.
No meio da escada, os degraus não são perfeitos. Entre 25 e 59 anos, quem “lê e escreve” faltou menos (15 de cada 100) que quem tem o fundamental incompleto (19). As duas pontas não mudam: o analfabeto falta mais; o diplomado, menos.
Em todos os estados
A distância entre as duas pontas aparece nos 27 estados, sempre no mesmo sentido. A conta abaixo usa só eleitores de 25 a 59 anos.
Em que estado o analfabeto falta mais?
Eleitores de 25 a 59 anos que faltaram em 2022, em cada 100. Toque num estado para ver quantos eleitores há em cada grupo.
AnalfabetosDiploma de faculdade
No Piauí, a distância é a menor: 17,5 contra 9,1. No Distrito Federal, a maior: 44,3 contra 10,2.
A comparação também vale dentro de cada cidade. Em 4.228 dos 4.547 municípios com pelo menos 50 eleitores analfabetos de 25 a 59 anos, o analfabeto faltou mais que o vizinho da mesma idade que sabe ler. São 93 de cada 100 cidades.
A cidade esconde
Agora, a pergunta da pauta. Separamos os 5.570 municípios em dez grupos de 557, pelo analfabetismo dos adultos no Censo 2022. E medimos a abstenção de cada grupo.
As cidades com mais analfabetos faltam mais?
Eleitores que faltaram ao 1º turno, em cada 100, em dez grupos de cidades. Troque o ano e a régua.
Em 2026, nas 557 cidades com mais analfabetos, faltaram 20,4 de cada 100 eleitores. Nas 557 com menos analfabetos, faltaram 21,6. Os dez grupos ficam entre 19,6 e 21,6.
Em 2022, a diferença existia, mas era pequena: 23,0 contra 20,3. Entre pessoas, no mesmo ano, a diferença foi de 40 pontos.
A régua da escola também não separa as cidades. Em 2026, nas 552 cidades onde as crianças do 5º ano leem pior no Saeb, faltaram 20,6 de cada 100 eleitores. Nas 552 onde leem melhor, 19,7. Essas crianças ainda não votam. A nota mede a escola de hoje, não o eleitor de hoje.
Por que a cidade esconde o que a pessoa mostra? Porque a média da cidade mistura todo mundo. O analfabeto é uma parte pequena do eleitorado, e a falta dele se dilui. Outras coisas, que este dado não mede, pesam na abstenção de uma cidade inteira.
Comparando cada cidade só com as do seu estado, o elo volta, fraco. Descontados o estado e o nível socioeconômico das escolas, cada 10 pontos a mais de analfabetismo vêm com 1,3 ponto a mais de abstenção em 2026. Em 2022, eram 2,7.
O que o dado não diz
O dado conta quem faltou. Não diz por quê. Ler pouco anda junto com outras coisas, como renda menor e mais idade. Esta reportagem controla a idade, mas não separa todo o resto.
O cadastro também envelhece. A escolaridade é a que o eleitor declarou ao tirar ou atualizar o título; quem estudou depois pode continuar como analfabeto. E quem morreu e não teve o título cancelado conta como faltoso.
O retrato do eleitor é de 2022. O TSE ainda não publicou o mesmo arquivo para 2026.
Como fizemos
- Quem faltou, por escolaridade. TSE, arquivo perfil_comparecimento_abstencao_2022 (cdn.tse.jus.br), 1º turno: eleitores aptos, comparecimento e abstenção por município, zona, idade e grau de escolaridade declarado no cadastro. 155,8 milhões de eleitores aptos no Brasil; o exterior fica fora. O arquivo de 2026 ainda não existia em 07/10/2026.
- Medida. Abstenção = eleitores aptos que não votaram ÷ eleitores aptos × 100. Os números de cada grupo somam todos os eleitores antes de dividir.
- Controle da idade. A faixa de 25 a 59 anos deixa de fora quem tem voto facultativo pela idade (16, 17 e 70 anos ou mais) e os de 18 a 24, para comparar adulto com adulto.
- Mesma cidade. Em cada município com pelo menos 50 eleitores analfabetos de 25 a 59 anos (4.547 cidades), comparamos a abstenção deles com a dos demais eleitores da mesma faixa de idade.
- Cidades. Abstenção para presidente no 1º turno de 2018, 2022 (TSE, detalhe_votacao_munzona) e 2026 (sistema de resultados do TSE, 100% apurado), nos 5.570 municípios. Grupos pela taxa de analfabetismo de 15 anos ou mais do IBGE (Censo 2022, tabela 9543) e pela nota de Língua Portuguesa do 5º ano da rede pública no Saeb (Inep, 2025; 2023 quando 2025 faltava), em 5.517 municípios.
- Contrafactual das cidades. Regressão linear da abstenção sobre o analfabetismo, com o estado e o nível socioeconômico das escolas públicas (INSE 2023, Inep), em 5.558 municípios: +3,0 (2018), +2,7 (2022) e +1,3 (2026) pontos de abstenção a cada 10 pontos de analfabetismo.
- Limites. A escolaridade do cadastro é autodeclarada e pode estar velha. Mortos não excluídos do cadastro contam como faltosos. O brasileiro analfabeto que nunca tirou título não aparece em nenhuma conta. Os números de 2026 podem mudar com retotalizações.
- Associação não é causa. O texto descreve quem faltou e onde. Não explica por quê.
- Cálculo. eleicoes/calculos/a-abstencao-e-a-escola.py, com o resultado em a-abstencao-e-a-escola.json, no acervo do letramento.org.
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